Ontem fiquei a saber uma coisa curiosa que desconhecia. Com o recente falecimento do avô do Stas, a família vê-se agora a braços com diferentes burocracias que têm de ser resolvidas. E é preciso arranjar certidões de tudo, incluindo de casamento. Foi a propósito desta certidão de casamento dos avós que fiquei a saber algo novo. Os senhores casaram-se em 1944, ainda durante a guerra. Ambos viviam na zona oriental da Polónia, que tinha sofrido a ocupação nazi e estava a levar com a chegada dos vermelhos soviéticos. Basicamente não havia rei nem roque. Então, do que a avó conta, durante o tempo da guerra só se celebravam casamentos religiosos, porque na prática não havia uma autoridade civil que mandasse e que registasse o que quer que fosse. Ou seja, durante vários anos os avós não tinham nenhum documento civil oficial que declarasse que estavam de facto casados. Só com o comunismo se instituiram os casamentos civis.
Resta ainda dizer que, nos anos do comunismo, quem desejasse casar-se pela Igreja tinha de se casar duas vezes; é que não havia nenhum regime concordatário em que o casamento religioso tivesse também fins civis. Então fazia-se assim: de manhã os noivos empinocavam-se todos e iam com a família ao registo civil para a celebração do casamento e depois à tarde empinocavam-se novamente para irem todos à igreja, para a celebração religiosa. Em suma: passou-se de uma época em que só havia casamentos nas igrejas para uma em que os noivos tinham de se casar duas vezes no mesmo dia.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Wola
Na semana passada tive de ir a Wola, um dos bairros mais antigos de Varsóvia. O bairro onde moro - Ursynów - é, como costumo dizer, um mundo à parte. A maior parte das vezes sinto-me como se vivesse numa cidade diferente, que faz fronteira com Varsóvia. Raramente tenho de ir para as zonas centrais da cidade, porque aqui à volta há tudo: serviços municipais, médicos, cinemas, restaurantes, hipermercados, etc. Para além disso, Ursynów encontra-se muito bem delimitado; diria até que é o único bairro de Varsóvia cujas fronteiras estão bem definidas. Nos outros bairros há sempre zonas que não sabemos muito bem se pertencem a este ou àquele, mas em Ursynów nunca encontrei nenhum sítio assim.
Wola é um bairro com muita história. Em Wola fica, por exemplo, o cemitério Powązki. Durante a IIª guerra mundial foi principalmente neste bairro que se delimitou o gueto dos judeus (ainda hoje há um fragmento do muro que pode ser visto numa das ruas). Aquando da destruição do gueto, arrasou-se completamente com tudo o que havia dentro daqueles muros, até ficar tudo quase em pó. Um ano depois, já perto do fim da Insurreição de Varsóvia, os alemães enviaram para Varsóvia um batalhão composto sobretudo por assassinos e outros reclusos que foram "re-integrados" no exército, cujo objectivo era simplesmente matar, matar, matar. À medida que iam avançado por Varsóvia, iam matando todas as pessoas que encontravam pelo caminho. Foi uma autêntica chacina em que, em coisa de dois dias, morreram quase 60 mil pessoas. Wola ficava, nessa altura, na fronteira de Varsóvia. Os soldados entraram por aí e limitaram-se a matar civis, pegar fogo às casas, empilhar cadáveres e queimá-los também, enfim, uma barbárie indescritível. Depois destes acontecimentos, Wola quase deixou de existir. Praticamente todas as construções que ali vemos hoje são do pós-guerra. No entanto, aqui e ali descobrem-se memórias do passado.
Uma curiosidade que certa vez me contaram sobre Wola é o facto da maioria das casas se encontrar um pouco mais elevadas do que o normal, isto é, o rés-do-chão não é tão baixo como noutras partes de Varsóvia. Isto porque todos os prédios foram construídos por cima das ruínas que ficaram da guerra. Para além disso, contaram-me também (uns amigos que viveram alguns anos em Wola) que quando se faz alguma escavação por ali às vezes encontram-se esqueletos ou objectos imagino que pertencentes às pessoas que ali viveram.Pormenores sinistros à parte, em geral acho que Wola é um bairro com uma certa piada. Com o seu comércio local, meio tradicional, espaços verdes por entre as casas, elétricos a passar e casas antigas (ainda que antigo signifique dos anos 50), tem um certo charme. Quem quiser visitar Varsóvia, recomendo um passeio por Wola.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
A religiosidade dos polacos
No que diz respeito à sua religiosidade, a Polónia é um país com aspectos interessantes.
1. Tendo-se convertido ao catolicismo bastante cedo e lutado com garra por ele (pode-se dizer que, graças aos polacos, a Europa não é muçulmana), foi no entanto um país tolerante, que desafiou o Santo Ofício ao receber judeus fugidos de todas as partes da Europa. Isto fez com que a população judia na Polónia fosse, de facto, muito numerosa. Para além disso, na zona oriental da Polónia há também um grande número de pessoas que praticam o cristianismo Ortodoxo, sendo possível encontrar em diversas cidades e vilas templos desta religião (que são lindíssimos). A propósito disto, tenho uma amiga que é de uma cidade nessa zona oriental da Polónia (chamada Podláquia), onde se celebravam tanto os feriados católicos, como os ortodoxos. Certa vez, a falar com o seu futuro marido (que era de outra cidade, mais perto de Varsóvia), percebeu que ele não celebrava as festas ortodoxas e ficou horrorizada. Só depois percebeu que, em geral, na Polónia não se celebram esses feriados, apena nas zonas onde há grande população ortodoxa (precisamente onde ela cresceu).
2. Durante os tempos da Cortina de Ferro, nos países dominados pelo comunismo havia muitas restrições à vida religiosa. Excepcionalmente, a Polónia era o único país onde era permitido ir à Missa e participar em práticas religiosas. Em países como a Checoslováquia isso não era possível e de tal modo quiseram destruir a religião, que hoje em dia mais de 90% dos checos se consideram ateus. O meu primeiro professor de polaco contava que, durante a Guerra Fria, foi uma vez com uns amigos a um dos países comunistas (seria a Hungria?) e no Domingo quiseram ir à Missa. À porta da igreja encontraram soldados que lhes pediram identificação. Ao verem que eram polacos, deixaram-nos entrar. No entanto, não muito longe deles ia um grupo de raparigas jovens que tinha o mesmo plano. À entrada do templo foram barradas e não as deixaram entrar. Para além dos polacos, só deixaram entrar pessoas idosas. Na Polónia não era assim, de todo. O que não significa que não houve perseguições; muitos padres foram assassinados e o Cardeal Wyszynski (Primaz da Polónia) esteve vários anos preso, porque não queria colaborar com o regime*. Ou seja, havia liberdade até certo ponto. Lembro-me aqui de um episódio de uma réplica do ícone da Virgem Negra de Czestochowa que andava a circular por vários locais; uma espécie de peregrinação da imagem. Os comunistas não acharam piada e confiscaram o quadro. As pessoas não gostaram e resolveram continuar a fazer o mesmo, mas com a moldura, que eles tinham deixado para trás.
3. Apesar dos comunistas permitirem o culto religioso, não gostavam da ideia de se construírem igrejas novas. Um exemplo clássico disto é a igreja de Nowa Huta, um bairro operário construído em Cracóvia, no tempo de Karol Wojtyla. Os comunistas fizeram-no um "bairro exemplo" e, como tal, não tinha igreja. As pessoas não acharam piada e resolveram construir a igreja com as suas próprias mãos. Durante meses, à noite, começavam a colocar os fundamentos e de manhã chegavam as milicias e destruíam tudo. Foi um longo jogo de persistência até que os comunistas se renderam ao facto de que ali teria de haver uma igreja. Mas isto não aconteceu apenas em Nowa Huta. Em Ursynów, onde moro, também há histórias destas, sendo a mais impactante a da antiga paróquia do Stas, onde a Teresa foi baptizada. Mas isto hei-de contar noutro post.
4. Como a Polónia foi um país muitas vezes atacado - e até dominado - pela Rússia, ou Prússia, por estes serem países de religiões diferentes e que nem sempre se mostravam tolerantes ao catolicismo, a fé dos polacos foi muito associada ao patriotismo, pois os invasores roubavam-lhes a pátria e a religião. E o que acontece quando as pessoas são atacadas ou perseguidas? A sua fé torna-se mais forte, daí que a Polónia seja conhecida por ser um dos países mais católicos da Europa (apesar da tendência parecer estar a inverter. Agora que não há comunismo, há várias pessoas que professam os seus ideais e, por isso, são anti-igreja).
___________
* Quanto foi preciso nomear um bispo para Cracóvia, o governo pediu ao Cardeal que lhe entregasse uma lista com os padres que achavam bons para aquele cargo, postos por ordem de importância. Sabendo como o governo agia, o Cardeal resolveu escrever no fim da lista o nome de Karol Wojtyla, sendo que era esse que ele queria para ocupar esse cargo. Os comunistas, achando que o Cardeal não gostava dele, disseram que era aquele que devia ser nomeado bispo. O Cardeal fez cara de poucos amigos, mas fingiu estar a obedecer às ordens. Mais tarde, durante o tempo de episcopado de Karol Wojtyla em Cracóvia, o governo procurou sempre semar a discórdia entre ele e o Cardeal Wyszynski e passar a falsa imagem de que eles se odiavam. O que não era verdade.
1. Tendo-se convertido ao catolicismo bastante cedo e lutado com garra por ele (pode-se dizer que, graças aos polacos, a Europa não é muçulmana), foi no entanto um país tolerante, que desafiou o Santo Ofício ao receber judeus fugidos de todas as partes da Europa. Isto fez com que a população judia na Polónia fosse, de facto, muito numerosa. Para além disso, na zona oriental da Polónia há também um grande número de pessoas que praticam o cristianismo Ortodoxo, sendo possível encontrar em diversas cidades e vilas templos desta religião (que são lindíssimos). A propósito disto, tenho uma amiga que é de uma cidade nessa zona oriental da Polónia (chamada Podláquia), onde se celebravam tanto os feriados católicos, como os ortodoxos. Certa vez, a falar com o seu futuro marido (que era de outra cidade, mais perto de Varsóvia), percebeu que ele não celebrava as festas ortodoxas e ficou horrorizada. Só depois percebeu que, em geral, na Polónia não se celebram esses feriados, apena nas zonas onde há grande população ortodoxa (precisamente onde ela cresceu).
2. Durante os tempos da Cortina de Ferro, nos países dominados pelo comunismo havia muitas restrições à vida religiosa. Excepcionalmente, a Polónia era o único país onde era permitido ir à Missa e participar em práticas religiosas. Em países como a Checoslováquia isso não era possível e de tal modo quiseram destruir a religião, que hoje em dia mais de 90% dos checos se consideram ateus. O meu primeiro professor de polaco contava que, durante a Guerra Fria, foi uma vez com uns amigos a um dos países comunistas (seria a Hungria?) e no Domingo quiseram ir à Missa. À porta da igreja encontraram soldados que lhes pediram identificação. Ao verem que eram polacos, deixaram-nos entrar. No entanto, não muito longe deles ia um grupo de raparigas jovens que tinha o mesmo plano. À entrada do templo foram barradas e não as deixaram entrar. Para além dos polacos, só deixaram entrar pessoas idosas. Na Polónia não era assim, de todo. O que não significa que não houve perseguições; muitos padres foram assassinados e o Cardeal Wyszynski (Primaz da Polónia) esteve vários anos preso, porque não queria colaborar com o regime*. Ou seja, havia liberdade até certo ponto. Lembro-me aqui de um episódio de uma réplica do ícone da Virgem Negra de Czestochowa que andava a circular por vários locais; uma espécie de peregrinação da imagem. Os comunistas não acharam piada e confiscaram o quadro. As pessoas não gostaram e resolveram continuar a fazer o mesmo, mas com a moldura, que eles tinham deixado para trás.
3. Apesar dos comunistas permitirem o culto religioso, não gostavam da ideia de se construírem igrejas novas. Um exemplo clássico disto é a igreja de Nowa Huta, um bairro operário construído em Cracóvia, no tempo de Karol Wojtyla. Os comunistas fizeram-no um "bairro exemplo" e, como tal, não tinha igreja. As pessoas não acharam piada e resolveram construir a igreja com as suas próprias mãos. Durante meses, à noite, começavam a colocar os fundamentos e de manhã chegavam as milicias e destruíam tudo. Foi um longo jogo de persistência até que os comunistas se renderam ao facto de que ali teria de haver uma igreja. Mas isto não aconteceu apenas em Nowa Huta. Em Ursynów, onde moro, também há histórias destas, sendo a mais impactante a da antiga paróquia do Stas, onde a Teresa foi baptizada. Mas isto hei-de contar noutro post.
4. Como a Polónia foi um país muitas vezes atacado - e até dominado - pela Rússia, ou Prússia, por estes serem países de religiões diferentes e que nem sempre se mostravam tolerantes ao catolicismo, a fé dos polacos foi muito associada ao patriotismo, pois os invasores roubavam-lhes a pátria e a religião. E o que acontece quando as pessoas são atacadas ou perseguidas? A sua fé torna-se mais forte, daí que a Polónia seja conhecida por ser um dos países mais católicos da Europa (apesar da tendência parecer estar a inverter. Agora que não há comunismo, há várias pessoas que professam os seus ideais e, por isso, são anti-igreja).
___________
* Quanto foi preciso nomear um bispo para Cracóvia, o governo pediu ao Cardeal que lhe entregasse uma lista com os padres que achavam bons para aquele cargo, postos por ordem de importância. Sabendo como o governo agia, o Cardeal resolveu escrever no fim da lista o nome de Karol Wojtyla, sendo que era esse que ele queria para ocupar esse cargo. Os comunistas, achando que o Cardeal não gostava dele, disseram que era aquele que devia ser nomeado bispo. O Cardeal fez cara de poucos amigos, mas fingiu estar a obedecer às ordens. Mais tarde, durante o tempo de episcopado de Karol Wojtyla em Cracóvia, o governo procurou sempre semar a discórdia entre ele e o Cardeal Wyszynski e passar a falsa imagem de que eles se odiavam. O que não era verdade.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Dia Internacional de Memória do Holocausto
Hoje comemora-se o aniversário da libertação do campo de Auschwitz. O presidente polaco e alemão lá se encontraram em Auschwitz para uma cerimónia com antigos prisioneiros (fiquei a saber que o presidente da Alemanha se chama Christian Wulff... nem sabia que ele existia...).
Este dia foi proclamado Dia Internacional da Memória do Holocausto pela ONU em 2005, altura em que se reconheceu oficialmente a existência do Holocausto. A propósito disto, gostava de escrever umas breves linhas sobre um polaco notável, chamado Witold Pilecki, membro da resistência polaca durante a guerra.
Quando o mundo, durante a guerra, insistia em fechar os olhos ao que se estava a passar e em negar que houvesse extermínio de pessoas, Pilecki decidiu fazer algo muito arriscado: deixou-se prender para ir para Auschwitz e aí recolheu o máximo de informações para passar à resistência e, por conseguinte, aos aliados.
Pilecki era um militar, que já tinha lutado na guerra contra os russos anos antes. Quando se iniciou a IIª Guerra Mundial, lutou contra os alemães na chamada Campanha de Setembro. Depois disso, veio para Varsóvia e trabalhou com a resistência. Em 1940 teve a ideia de ir para Auschwitz recolher informações sobre o funcionamento do campo e de criar aí um movimento secreto de oposição. Certo dia, quando os alemães apanhavam pessoas na rua para enviar para o campo de concentração (em polaco traduz-se literalmente por "apanhadas", porque as pessoas eram apanhadas na rua assim do meio do nada), ele meteu-se lá no meio e foi também apanhado. Quase 3 dias depois chegou ao campo de concentração.
Durante a sua estadia, organizou o novo movimento de oposição, criando diferentes núcleos (que não sabiam da existência uns dos outros) que se ajudavam mutuamente, fosse a arranjar mais comida, divulgando notícias do exterior (ou passando para fora) ou mesmo animar os espíritos dos outros prisioneiros. Para além disso, Pilecki foi recolhendo informações sobre o genocídio que estava a acontecer dentro de Auschwitz e através de diferentes pessoas foi passando-as para fora (umas para a resistência, outras para os aliados - informações estas que foram ignoradas, pois os aliados continuavam a achar que era tudo um mito).
Por fim, em 1943 Pilecki conseguiu fugir com mais dois prisioneiros. Andou uns tempos escondido e mais tarde voltou às suas actividades, participando na Insurreição de Varsóvia e no exército polaco no estrangeiro, em Itália, lutando com o general Anders.
Com o fim da guerra, regressou à Polónia e começou a recolher informações sobre o que estava a acontecer aos soldados polacos que tinham lutado na resistência, pois os russos andavam a perssegui-los e muitos tinham sido deportados para a Sibéria. O acima mencionado general Anders disse-lhe para fugir da Polónia, mas Pilecki achou que não havia perigo para si. Enganou-se. Em 1947 foi preso pelo UB (a polícia política dos tempos do comunismo) e um ano depois foi condenado por crimes como: atravessar ilegalmente as fronteiras, utilização de documentos ilegais, posse ilegal de armas, ser espião do general Anders (e colaborador do governo polaco no exílio) e tentativa de golpe contra o Ministério da Segurança Nacional. Pilecki acabou por ser assassinado com um tiro na nuca e atirado para uma qualquer vala comum (não há certeza do sítio onde foi enterrado).
Antes de morrer, Pilecki disse à sua mulher que o UB era pior que a SS de Auschwitz. Terá dito algo como: "Auschwitz ao lado disto é uma ninharia".
Nos últimos anos, Pilecki foi postumamente condecorado pelas autoridades polacas com duas ordens oficiais, uma delas a mais importante na Polónia.
Placa que assinala o local onde Pilecko se deixou apanhar para ir para Auschwitz. Diz o seguinte: Aqui, no dia 19 de Setembro de 1940, foi preso pelos nazis o capitão Witold Pilecki (1901-1948), "Witold", a fim de, como prisioneiro nº. 4859 de Auschwitz, organizar uma conspiração dentro do campo de concentração. Morreu na prisão em Mokotów [Varsóvia] às mãos dos carrascos de Stalin, + 25 de Maio de 1948. Paz à sua alma.
Este dia foi proclamado Dia Internacional da Memória do Holocausto pela ONU em 2005, altura em que se reconheceu oficialmente a existência do Holocausto. A propósito disto, gostava de escrever umas breves linhas sobre um polaco notável, chamado Witold Pilecki, membro da resistência polaca durante a guerra.
Quando o mundo, durante a guerra, insistia em fechar os olhos ao que se estava a passar e em negar que houvesse extermínio de pessoas, Pilecki decidiu fazer algo muito arriscado: deixou-se prender para ir para Auschwitz e aí recolheu o máximo de informações para passar à resistência e, por conseguinte, aos aliados.
Pilecki era um militar, que já tinha lutado na guerra contra os russos anos antes. Quando se iniciou a IIª Guerra Mundial, lutou contra os alemães na chamada Campanha de Setembro. Depois disso, veio para Varsóvia e trabalhou com a resistência. Em 1940 teve a ideia de ir para Auschwitz recolher informações sobre o funcionamento do campo e de criar aí um movimento secreto de oposição. Certo dia, quando os alemães apanhavam pessoas na rua para enviar para o campo de concentração (em polaco traduz-se literalmente por "apanhadas", porque as pessoas eram apanhadas na rua assim do meio do nada), ele meteu-se lá no meio e foi também apanhado. Quase 3 dias depois chegou ao campo de concentração.
Durante a sua estadia, organizou o novo movimento de oposição, criando diferentes núcleos (que não sabiam da existência uns dos outros) que se ajudavam mutuamente, fosse a arranjar mais comida, divulgando notícias do exterior (ou passando para fora) ou mesmo animar os espíritos dos outros prisioneiros. Para além disso, Pilecki foi recolhendo informações sobre o genocídio que estava a acontecer dentro de Auschwitz e através de diferentes pessoas foi passando-as para fora (umas para a resistência, outras para os aliados - informações estas que foram ignoradas, pois os aliados continuavam a achar que era tudo um mito).
Por fim, em 1943 Pilecki conseguiu fugir com mais dois prisioneiros. Andou uns tempos escondido e mais tarde voltou às suas actividades, participando na Insurreição de Varsóvia e no exército polaco no estrangeiro, em Itália, lutando com o general Anders.
Com o fim da guerra, regressou à Polónia e começou a recolher informações sobre o que estava a acontecer aos soldados polacos que tinham lutado na resistência, pois os russos andavam a perssegui-los e muitos tinham sido deportados para a Sibéria. O acima mencionado general Anders disse-lhe para fugir da Polónia, mas Pilecki achou que não havia perigo para si. Enganou-se. Em 1947 foi preso pelo UB (a polícia política dos tempos do comunismo) e um ano depois foi condenado por crimes como: atravessar ilegalmente as fronteiras, utilização de documentos ilegais, posse ilegal de armas, ser espião do general Anders (e colaborador do governo polaco no exílio) e tentativa de golpe contra o Ministério da Segurança Nacional. Pilecki acabou por ser assassinado com um tiro na nuca e atirado para uma qualquer vala comum (não há certeza do sítio onde foi enterrado).
Antes de morrer, Pilecki disse à sua mulher que o UB era pior que a SS de Auschwitz. Terá dito algo como: "Auschwitz ao lado disto é uma ninharia".
Nos últimos anos, Pilecki foi postumamente condecorado pelas autoridades polacas com duas ordens oficiais, uma delas a mais importante na Polónia.
Placa que assinala o local onde Pilecko se deixou apanhar para ir para Auschwitz. Diz o seguinte: Aqui, no dia 19 de Setembro de 1940, foi preso pelos nazis o capitão Witold Pilecki (1901-1948), "Witold", a fim de, como prisioneiro nº. 4859 de Auschwitz, organizar uma conspiração dentro do campo de concentração. Morreu na prisão em Mokotów [Varsóvia] às mãos dos carrascos de Stalin, + 25 de Maio de 1948. Paz à sua alma.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Arbeit macht frei
Mesmo sem a conhecida placa introdutória do campo de concentração de Auschwitz, comemoram-se hoje os 65 anos da libertação deste campo pelo Exército Vermelho.
No Outono de 1944, os nazis começaram a operação para encerrar Auschwitz, queimando ficheiros, destruindo provas (entre as quais fornos crematórios) e transferindo prisioneiros para campos de concentração na Alemanha. A 27 de Janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho chegou, libertou apenas 8 mil prisioneiros, entre os quais 500 crianças, doentes e esfomeadas. Muitos apressaram-se a voltar a casa, outros ficaram em hospitais das redondezas e alguns acabaram por morrer de exaustão.
Hoje, em Auschwitz, vão estar mais de 150 s0breviventes a participar na comemoração do fim deste pesadelo. Entre eles estará Anna Stachowiak, na altura uma criança. Originária de Poznań, viu-se obrigada a fugir para Varsóvia com a mãe e os irmãos após o massacre de Katyń, onde o pai foi assassinado. Viveram numa casa em Ochota, de onde pouco saíam e quase não se afastavam. Anna tinha uns 6 anos e ia-se familiarizando com a guerra. Ouvia as conversas dos adultos e sabia o que podia ou não fazer. Nas ruas volta e meia os soldados nazis apanhavam pessoas para as levar para campos de concentração e tinham de ter cuidado com isso.
Durante a Insurreição de Varsóvia, como represália, os alemães prenderam muitos civis, entre os quais Anna e a família. Foram todos enviados para Auschwitz. À chegada foram separados; a mãe para um lado, o irmão para outro e Anna e a irmã para outro.
Auschwitz visto pelos olhos de uma criança é algo que impressiona. O testemunho desta senhora é incrível. Alguns meses depois, a mãe e o irmão partiram na chamada Marcha da Morte, parte do plano alemão para encerrar o campo antes da chegada dos russos. Dias depois, quando chegaram os soldados vermelhos, Anna e a irmã foram levadas para casa de uma prisioneira que morava nas redondezas, mas daí seguiram para o hospital de Cracóvia, tal era o seu estado. Aí permaneceram vários meses até ficarem bem. O que aconteceu depois não sei. Imagino que Anna tenha ido para a escola e tentado ter uma vida normal. Diz que durante anos não conseguia ouvir alguém falar alemão sem ficar afectada, até a nível de saúde. Agora, há já uns anos, conseguiu enfrentar os seus traumas e trabalha numa fundação que contacta com ex-prisioneiros de campos de concentração. E hoje vai lá estar, outra vez, a olhar para ao barracão onde passou tantos dias e tantas noites.
A mãe de Anna acabou por morrer na Alemanha, mas o irmão sobreviveu à guerra. Conseguiu estudar e arranjar trabalho. No entanto, o facto do pai ter morrido em Katyń prejudicou-o a nível profissional, pois os comunistas perseguiam todos os polacos patriotas, fossem membros da AK (resistência), familiares das vítimas de Katyń (afinal de contas, vítimas dos comunistas), membros da legião de Piłsudski, ou quaisquer outros que apoiassem a Polónia livre. O irmão de Anna acabou por não conseguir ter uma vida muito normal devido aos traumas que trouxe do tempo da guerra.
Esta é apenas uma de tantas e tantas histórias relacionadas com Auschwitz. Infelizmente a maioria delas não acaba tão bem como esta, tendo em conta que Anna e os irmãos sobreviveram. Lembro-me de ouvir contar na família do Staś de alguém que esteve num campo de concentração e que quando escrevia cartas à família não podia dizer que algo estava mal, então tinha de escrever com um certo código. Dizia que a comida era boa e coisas do estilo, que todos obviamente sabiam ser mentira. Certo dia, escreveu a perguntar como estava uma tal tia, pois tinha ouvido dizer que estava doente. Naquele momento a família percebeu que ele estava doente, pois não havia nenhuma tia com aquele nome (que, aliás, era o nome dele escrito no feminino). Felizmente foi libertado e voltou para junto da família. Dele ainda se guarda uma bolsinha que trouxe ao pescoço no campo de concentração, com relíquias de Santa Teresinha.
Hoje está frio e neva. Há 65 anos atrás, quando o Exército Vermelho entrou em Auschwitz, o dia também estava assim. Recordações tristes da história da Polónia e da Europa.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Séc. XVII: Jan Kazimierz em Portugal?
No sábado recebi um sms de alguém a dizer-me que na Antena 2 estava a dar um programa sobre música polaca. Já não era a primeira vez que recebia um sms daqueles, mas da outra vez não tinha tido oportunidade de ouvir. Desta vez, através da internet ligámos a Antena 2 e ouvimos. Ao que parece, é um ciclo de programas sobre a música polaca ao longo dos séculos. Neste programa que ouvimos particularmente interessante foi uma referência que fizeram ao rei polaco Jan Kazimierz. O Staś quando ouviu também ficou surpreendido, porque não sabia aquilo.
Jan Kazimierz viveu entre 1609 e 1675, época em que Portugal passou do domínio dos Filipes espanhóis à independência. Antes de ser rei, Jan Kazimierz teve um percurso um pouco atribulado. Entre algumas peripécias, em 1638 viajou até Espanha, pois preparava-se para aceitar o cargo de vice-rei de Portugal. Porque motivo nunca ouvimos falar dele? Porque os seus planos sairam furados e acabou por nunca o ser. Durante a viagem foi preso em França pelo cardeal Richelieu, acusado de ser um espião espanhol. Quase dois anos depois foi libertado graças à intervenção de um deputado do Sejm polaco e já não foi para Espanha (até porque entretanto o panorama em Portugal tinha-se alterado). Ou seja, por pouco ainda tínhamos um vice-rei polaco em Portugal!
A ver se no próximo sábado consigo ouvir novamente o programa para descobrir mais coisas interessantes.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Os polacos do ocidente falam melhor
Enquanto lia uns textos interessantes sobre a repatriação dos polacos no final da IIª Guerra Mundial, deparei-me com uma informação bastante curiosa. Parece que os habitantes da região ocidental da Polónia são os que falam polaco mais correctamente. Quem o diz é o professor Jan Miodek, importante linguista da Universidade de Szczecin.
Em 1944, os polacos que viviam na actual região da Lituânia, Bielorússia e Ucrânia (na altura territórios polacos) foram "convidados" a deixarem as suas terras e irem para a Polónia. Deu-se isto em consequência da Conferência de Teerão, na qual Stalin, Churchill e Roosevelt decidiram como seriam as novas fronteiras da Polónia após a guerra. Ou seja, os que viviam nos territórios orientais retirados à Polónia tiveram de ir para os territórios ocidentais, retirados à Alemanha.
Então, segundo dizem, a nata de Lvov e Vilnius, entre outras, passou a ocupar a região que foi "des-germanizada" e "polonizaram-na". Segundo estudos feitos nos anos 90, em Wrocław, Zielona Góra, Szczecin e Koszalin as pessoas falam usando uma linguagem literária, mais correcta que a da maioria dos polacos. Mas não é só aqui que se fala de maneira um pouco diferente. Contaram-me há tempos que as colónias de emigrantes polacos no Brasil, EUA e Canadá falam um polaco semelhante ao que se falava no séc. XIX ou início de séc. XX (na altura em que muitos polacos emigraram para o novo continente). Dizem que usam uma linguagem mais correcta, menos coloquial. Gostava muito de poder ver na prática estas diferenças, mas para já ainda não tive essa oportunidade.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O Pianista
Durante a nossa estadia em Lisboa li o livro "O Pianista", que deu origem ao filme com o mesmo nome. Nunca tive coragem de ver o filme, pois achava que seria demasiado brutal e forte. A minha cunhada, que me emprestou o livro, preveniu-me logo que era intenso. Mas mesmo assim eu quis ler.


A história é contada na primeira pessoa. O pianista polaco Władysław Szpilman escreveu-o pouco tempo depois de terminar a Segunda Guerra Mundial. É a sua experiência pessoal, tudo aquilo por que passou. E, como já esperava, a história é impressionante. Não se trata de nenhum herói incrível da guerra, mas de um homem normal, como tantos outros, judeu, que lutou pela sua sobrevivência até ao limite. Só que ele, ao contrário de tantos, conseguiu sobreviver. Como refere o alemão que o encontra quase no fim da guerra, Deus quis que ele sobrevivesse. Depois de ler o livro, não consigo mesmo arranjar outra explicação para além desta.
Ontem decidi ver o filme; agora que já conhecia a história não haveria de causar tanto impacto. Apesar do excelente desempenho do actor principal (que até lhe valeu um oscar), devo dizer que fiquei desiludida. Normalmente isto acontece quando se lê um livro e depois vê o filme. Mas o que me irritou é que apresentavam muitos factos incorrectos, como por exemplo, certas situações que Szpilman observou apareciam no filme como tendo-lhe acontecido a ele. Enfim, não vou descrever todas as incoerências. Apenas queria dizer que o livro é incomparavelmente melhor que o filme (apesar do filme também ser bom... só não é lá muito verdadeiro).

Para mim, a leitura foi particularmente interessante pelo facto da história se passar em Varsóvia. Szpilman vai descrevendo locais, referindo ruas, cinemas, sítios que sei onde são! Fala do centro e de Mokotów, um bairro que conheço bem. Gostei também muito de ver um pouco como era a vida na cidade naquele tempo, antes e depois da guerra. Szpilman conta algo que eu já tinha ouvido dizer: que Varsóvia era uma cidade vaidosa, cosmopolita, elegante e com boa vida social. Depois, vai descrevendo a transformação gradual a partir do momento em que os nazis a ocupam. Como judeu que é, Szpilman vai seguindo as restrições que a pouco a pouco vão sendo impostas a esta comunidade. Mais tarde, já no gueto, mostra com grande realismo como se vivia ali. Algo que sempre me intrigou foi o facto de haver pessoas que viviam normalmente em Varsóvia durante estes anos mais terríveis. A partir da fuga do gueto, Szpilman aqui e ali vai deixando uns lamirés sobre isto. Ao descrever a sua situação e o que ia observando pela janela e dentro dos prédios, pode-se perceber um pouco como viviam os polacos "arianos", que podiam viver normalmente nas suas casas. Até ao momento em que começou a Insurreição de Varsóvia, quando todos (ou quase todos) fugiram. Szpilman mostra a verdade nua e crua, sem fantasias nem acusações, e conta como havia diferentes tipos de judeus no gueto, desde os que viviam como lordes no meio da miséria dos outros, até aos que colaboravam com os nazis e colaboraram na deportação e assassinato de muitos. Refere também a chegada de tropas de ucranianos e como estes eram sanguinários. Disto já tinha ouvido alguns polacos falar (até dizem: como é que se explica que nos territórios da Ucrância que pertenciam à Polónia não existe praticamente ninguém etnicamente polaco? Foi uma chacina desgraçada... Mas disto falarei noutra altura). O que não sabia é que também havia tropas lituanas que agiam da mesma maneira. Quereriam eles vingar-se dos polacos por estes possuírem terras que eles consideravam suas?
O que gostei neste livro é o estilo natural com que foi escrito. Não nos apresenta um ponto de vista histórico nem tendencioso. Aliás, quando foi publicado pela primeira vez, teve alguns pormenores alterados, como o facto de Szpilman ter sido ajudado por um alemão (na primeira edição aparecia austríaco). Depois, chegou mesmo a ser proibido pelos comunistas e só nas últimas décadas é que voltou a ser publicado, desta vez na versão original. Recomendo sinceramente, vale a pena ler.
Fotos: A primeira foi tirada em 1946 e a segunda em 1942, para o documento de identificação obrigatório durante a ocupação nazi.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Completamente descabido
Há uns dias veio uma notícia absurda num jornal diário. Ao que
parece, o Ministério da Administração Interna alemão está a atribuir a nacionalidade alemã a todos os polacos que nasceram antes de 1990 nos territórios que anteriormente pertenciam à Alemanha. Ou seja, alguém que tenha nascido em Wrocław entre 1945 e 1990 pode ter dupla nacionalidade. Qual é o argumento deles para justificar este procedimento? Dizem eles que a Conferência de Potsdam, onde se procedeu à reorganização do território alemão (e onde se decidiu que a zona oriental da Alemanha passaria a integrar a Polónia), não foi válida. E porquê 1990? Porque nessa altura a Polónia e a Alemanha assinaram uma espécie de tratado de paz. Historiadores polacos afirmam que esta teoria é completamente disparatada, pois o Reich alemão deixou de existir a 8 de Maio de 1945. Já os alemães dizem que o Reich continuou a existir para além do Tratado de Potsdam. E a discussão poderia continuar por muito mais tempo.
Será que esta gente não tem mais nada para fazer? Haja paciência!...
parece, o Ministério da Administração Interna alemão está a atribuir a nacionalidade alemã a todos os polacos que nasceram antes de 1990 nos territórios que anteriormente pertenciam à Alemanha. Ou seja, alguém que tenha nascido em Wrocław entre 1945 e 1990 pode ter dupla nacionalidade. Qual é o argumento deles para justificar este procedimento? Dizem eles que a Conferência de Potsdam, onde se procedeu à reorganização do território alemão (e onde se decidiu que a zona oriental da Alemanha passaria a integrar a Polónia), não foi válida. E porquê 1990? Porque nessa altura a Polónia e a Alemanha assinaram uma espécie de tratado de paz. Historiadores polacos afirmam que esta teoria é completamente disparatada, pois o Reich alemão deixou de existir a 8 de Maio de 1945. Já os alemães dizem que o Reich continuou a existir para além do Tratado de Potsdam. E a discussão poderia continuar por muito mais tempo.Será que esta gente não tem mais nada para fazer? Haja paciência!...
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
17 de Setembro de 1939
Depois da grande efeméride no início deste mês, ontem
assinalou-se o 70º aniversário da invasão soviética na Polónia. Em coisa de um mês (falando de 1939, claro), a Polónia ficou completamente encurralada. Já aqui uma vez falei do excelente filme de Andrzej Wajda, Katyń. Volto a referi-lo, pois há uma cena inicial do filme que mostra muito bem esta realidade. Um grupo de civis fugia em direcção ao leste, com malas e tudo o que conseguiram levar consigo. A certa altura chegam a uma ponte e vêem do outro lado um grupo de pessoas nas mesmas circunstâncias, mas a fugir em sentido contrário. Alguém do segundo grupo grita para o primeiro: "Para onde é que vocês vão?". Ao que lhes respondem: "Estamos a fugir dos nazis. E vocês?" "Nós dos russos." Esta cena transmite uma excelente sensação de encurralados, de como não havia grande opção de fuga.
assinalou-se o 70º aniversário da invasão soviética na Polónia. Em coisa de um mês (falando de 1939, claro), a Polónia ficou completamente encurralada. Já aqui uma vez falei do excelente filme de Andrzej Wajda, Katyń. Volto a referi-lo, pois há uma cena inicial do filme que mostra muito bem esta realidade. Um grupo de civis fugia em direcção ao leste, com malas e tudo o que conseguiram levar consigo. A certa altura chegam a uma ponte e vêem do outro lado um grupo de pessoas nas mesmas circunstâncias, mas a fugir em sentido contrário. Alguém do segundo grupo grita para o primeiro: "Para onde é que vocês vão?". Ao que lhes respondem: "Estamos a fugir dos nazis. E vocês?" "Nós dos russos." Esta cena transmite uma excelente sensação de encurralados, de como não havia grande opção de fuga. A avó do Staś, que viveu os anos da guerra como adolescente, conta que os russos eram muito piores que os alemães. Diz que se os alemães causavam muitos danos, os russos por onde passavam não deixavam mesmo nada. Basicamente a diferença que me explicou é que os alemães eram minimamente civilizados e os russos uns autênticos bárbaros. Isto, aliás, vê-se em fotos de guerra. Quando se vêem paradas de russos a passar por cidades polacas é vê-los cada um como cada qual. Ou seja, nada arranjados, todos chungosos. Já os alemães andavam todos bem vestidinhos e tal.
Se uns já eram suficientemente maus, acho que os polacos não esperavam que pudesse acontecer algo ainda pior. Ainda por cima, os russos vieram com a promessa de ajudar a Polónia a libertar-se dos nazis, o que - obviamente - era treta. E o resto da história acho que já é conhecido.
Ontem ouvi na rádio uma mulher, deportada para a Sibéria durante o tempo da ocupação russa (como, aliás, aconteceu a muitos polacos, a ponto de dizerem que há na Sibéria autênticas cidades polacas). A senhora actualmente vivia na Austrália ou Nova Zelândia, não me lembro bem. Dizia ela que de tal maneira passou fome que jamais pensou que iria sobreviver. A descrição daqueles tempos na voz dela era absolutamente aterradora. Dizia que actualmente dá constantemente graças a Deus por ter sobrevivido e por ter conseguido formar uma família. 70 anos depois do início de uma página das mais negras na história da Polónia, continuam-se a ouvir relatos de reter a suspiração.
Nas últimas semanas tem-se falado muito sobre o massacre de Katyń. No parlamento discutem se se há-de considerar genocídio, se quê. Já há algum tempo que se tinha definido esta questão. Porquê voltar à discussão? Porque parece que o défice das contas públicas é bastante grande e por isso o governo arranja discussões fantasma para ocupar os meios de comunicação social e afastar do que realmente interessa. Pelos vistos não é só em Portugal.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
1 de Setembro de 1939
Ontem acordei com a notícia na rádio que se assinalava o 70º aniversário do início da IIª Guerra Mundial. Há 70 anos as tropas alemãs tinham entrado na Polónia e preparavam-se para a conquistar, perante a passividade dos russos, aliados depois do Pacto Ribbentrop-Molotov. A maioria dos meios de comunicação social falou sobre esta data. A revista Newsweek apresenta uma descrição dos primeiros dias da guerra (ainda não tive oportunidade de ler), a Wprost tinha na capa imagens do Putin, da Merkel e falava sobre o Pacto R-M, dizendo que aquelas duas nações deviam pedir desculpa (devo dizer que a capa me pareceu um pouco sensacionalista... mas e daí, não sou polaca...). O jornal Rzeczpospolita ofereceu com a e
dição de ontem uma reedição do jornal Kurjer Warszawski de 1 de Setembro de 1939. Achei esta ideia muito gira. Desde que andei mergulhada em jornais do início do séc. XX na Biblioteca Nacional, em Lisboa, que fiquei fã destes exemplares antigos. Claro que é uma cópia, mas é interessante na mesma. Na capa aparecem o Presidente e Primeiro Ministro da altura e uma mensagem do Presidente, que diz mais ou menos isto:
Cidadãos da República!
Na noite de hoje o nosso inimigo de sempre iniciou uma acção ofensiva contra a Nação Polaca, o que considero também contra Deus e a história.
Neste momento em que isto acontece, volto-me para todos os cidadãos desta nação com a profunda convicção de que toda a Nação, em defesa da sua Liberdade, Independência e honra, se concentra em torno do Comandante Supremo e das forças armadas, bem como oferece uma resposta digna aos atacantes, como mais de uma vez já aconteceu na história das relações polaco-alemãs.
Que toda a Nação Polaca, abençoada por Deus, na luta pela sua santa e justa causa, juntamente com o exército, siga de mão em mão para o campo de batalha e para a vitória total.
Um pormenor interessante que fiquei a saber quando vim para cá foi o pretexto que a Alemanha inventou para atacar a Polónia. Parece que uns alemães vestiram-se com uniformes polacos e atacaram um posto de soldados alemães perto da fronteira, dizendo que a Polónia tinha atacado a Alemanha e assim justificando a sua acção. Muito espertos.
Cidadãos da República!
Na noite de hoje o nosso inimigo de sempre iniciou uma acção ofensiva contra a Nação Polaca, o que considero também contra Deus e a história.
Neste momento em que isto acontece, volto-me para todos os cidadãos desta nação com a profunda convicção de que toda a Nação, em defesa da sua Liberdade, Independência e honra, se concentra em torno do Comandante Supremo e das forças armadas, bem como oferece uma resposta digna aos atacantes, como mais de uma vez já aconteceu na história das relações polaco-alemãs.
Que toda a Nação Polaca, abençoada por Deus, na luta pela sua santa e justa causa, juntamente com o exército, siga de mão em mão para o campo de batalha e para a vitória total.
Ignacy Mościcki
Presidente da República
Varsóvia, 1 de Setembro de 1939
Presidente da República
Varsóvia, 1 de Setembro de 1939
Um pormenor interessante que fiquei a saber quando vim para cá foi o pretexto que a Alemanha inventou para atacar a Polónia. Parece que uns alemães vestiram-se com uniformes polacos e atacaram um posto de soldados alemães perto da fronteira, dizendo que a Polónia tinha atacado a Alemanha e assim justificando a sua acção. Muito espertos.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Efeméride

Faz hoje 20 anos que houve eleições livres na Polónia depois da IIª Guerra Mundial. Nessas eleições, o Solidariedade massacrou completamente o governo comunista de então. Foi o início da mudança na Polónia que levou à queda do comunismo.
********
Devido ao facto de amanhã ir fazer um exame oficial de polaco, não consigo escrever muito mais sobre a história da Polónia. Mas espero conseguir fazê-lo em breve.
sexta-feira, 13 de março de 2009
A Toca do Lobo
Ontem estivemos a ver o filme Valquíria, o tal do Tom Cruise.
Achei muito interessante o facto de no filme aparecer o quartel-general do Hitler na Prússia Oriental, onde ocorreu o atentado, que na realidade fica na Polónia. Já em tempos tinha ouvido falar de uma casa qualquer onde o Hitler ficava na Polónia, na região dos lagos, mas nunca pensei que fosse esta. A Toca do Lobo - assim se chamava este quartel - fica na região de Kętrzyn, na Mazúria, perto de um grande lago. Este território pertencia à Polónia antes das partilhas do séc. XVIII, que a dividiram entre a Áustria, a Rússia e a Prússia. Apesar de se chamar Prússia, tal como nos outros antigos territórios da Polónia, as pessoas falavam polaco. Depois da Iª Guerra Mundial, a Polónia voltou a ser independente e recuperou alguns dos seus antigos territórios. No entanto, a Prússia Oriental continuou a pertencer à Alemanha. O Hitler decidiu instalar-se naquela região para dali comandar a invasão da Rússia, porque sempre era mais perto do que Berlim. O espaço estava muito bem organizado: no meio de um bosque, devidamente camuflado de modo a que nenhum avião desse por ele, nem
os moradores da região. Daquilo que ouvi dizer, durante a guerra e mesmo muito tempo depois da guerra, os polacos desconheciam a existência daquele quartel. Mal sonhavam eles que o Hitler tinha andado por ali tantas vezes. Segundo dizem, passou ali bastante tempo, nomeadamente: entre Junho de 1941 e Julho de 1942, sete dias no início de Novembro de 1942 e depois desde o fim desse mês até Fevereiro de 1943, seis dias em Março de 1943, 12 dias em Maio de 1943, 17 dias no início de Julho de 1943 e depois desde o fim desse mês até Fevereiro de 1944, e por fim entre Julho e Novembro de 1944.
A Toca do Lobo foi descoberta quando o Exército Vermelho começou a avançar sobre os nazis. Antes de abandonarem o local, os nazis fizeram explodir tudo. Porém, dado que algumas paredes tinham espessura de oito metros, nem todas as explosões conseguiram destruir tudo, tendo alguns dos bunkers e locais sobrevivido até hoje (não muitos, pelo que percebi).
Durante a existência activa da Toca do Lobo, viveram ali ma
is de 2000 pessoas. Tinha edifícios de carácter residencial e vários bunkers. Havia um grande gerador de energia, que fazia com que não tivessem de depender das terras vizinhas. Tinha também um cinema, uma central telefónica, casino, café, enfim, digamos que estavam bem apetrechados. Neste local o Hitler recebeu convidados importantes de países seus aliados, entre os quais Mussolini, o Primeiro-Ministro romeno Antonescu, o czar Bóris III da Bulgária, o Primeiro-Ministro francês Pierre Laval (do governo de Vichy) e o embaixador japones Hiroshi Oshim.
Perto deste local existe o hoje chamado aeródromo de Wilamowo. Aqui, os nazis construiram o seu aeroporto privativo para trazer e levar pessoas para a Toca do Lobo, bem como para abastecer o local. Este foi aproveitado posteriormente pelo Exército Vermelho. O aeródromo de Wilamowo mais tarde voltou a ser outra vez conhecido, pois deste local os comunistas transferiram o Cardeal Stefan Wyszyński como prisioneiro (ele teve de mudar várias vezes de local, pois os comunistas queriam manter segredo sobre o seu paradeiro, para criarem o mito de que tinha morrido ou abdicado. Só que as pessoas descobriam onde ele estava e depois era o cabo dos trabalhos).
Quem sabe se no Verão não decidimos dar um salto até à Mazúria e aproveitamos para ver a Toca do Lobo? Pode ser interessante.
Achei muito interessante o facto de no filme aparecer o quartel-general do Hitler na Prússia Oriental, onde ocorreu o atentado, que na realidade fica na Polónia. Já em tempos tinha ouvido falar de uma casa qualquer onde o Hitler ficava na Polónia, na região dos lagos, mas nunca pensei que fosse esta. A Toca do Lobo - assim se chamava este quartel - fica na região de Kętrzyn, na Mazúria, perto de um grande lago. Este território pertencia à Polónia antes das partilhas do séc. XVIII, que a dividiram entre a Áustria, a Rússia e a Prússia. Apesar de se chamar Prússia, tal como nos outros antigos territórios da Polónia, as pessoas falavam polaco. Depois da Iª Guerra Mundial, a Polónia voltou a ser independente e recuperou alguns dos seus antigos territórios. No entanto, a Prússia Oriental continuou a pertencer à Alemanha. O Hitler decidiu instalar-se naquela região para dali comandar a invasão da Rússia, porque sempre era mais perto do que Berlim. O espaço estava muito bem organizado: no meio de um bosque, devidamente camuflado de modo a que nenhum avião desse por ele, nem
os moradores da região. Daquilo que ouvi dizer, durante a guerra e mesmo muito tempo depois da guerra, os polacos desconheciam a existência daquele quartel. Mal sonhavam eles que o Hitler tinha andado por ali tantas vezes. Segundo dizem, passou ali bastante tempo, nomeadamente: entre Junho de 1941 e Julho de 1942, sete dias no início de Novembro de 1942 e depois desde o fim desse mês até Fevereiro de 1943, seis dias em Março de 1943, 12 dias em Maio de 1943, 17 dias no início de Julho de 1943 e depois desde o fim desse mês até Fevereiro de 1944, e por fim entre Julho e Novembro de 1944.A Toca do Lobo foi descoberta quando o Exército Vermelho começou a avançar sobre os nazis. Antes de abandonarem o local, os nazis fizeram explodir tudo. Porém, dado que algumas paredes tinham espessura de oito metros, nem todas as explosões conseguiram destruir tudo, tendo alguns dos bunkers e locais sobrevivido até hoje (não muitos, pelo que percebi).
Durante a existência activa da Toca do Lobo, viveram ali ma
is de 2000 pessoas. Tinha edifícios de carácter residencial e vários bunkers. Havia um grande gerador de energia, que fazia com que não tivessem de depender das terras vizinhas. Tinha também um cinema, uma central telefónica, casino, café, enfim, digamos que estavam bem apetrechados. Neste local o Hitler recebeu convidados importantes de países seus aliados, entre os quais Mussolini, o Primeiro-Ministro romeno Antonescu, o czar Bóris III da Bulgária, o Primeiro-Ministro francês Pierre Laval (do governo de Vichy) e o embaixador japones Hiroshi Oshim.Perto deste local existe o hoje chamado aeródromo de Wilamowo. Aqui, os nazis construiram o seu aeroporto privativo para trazer e levar pessoas para a Toca do Lobo, bem como para abastecer o local. Este foi aproveitado posteriormente pelo Exército Vermelho. O aeródromo de Wilamowo mais tarde voltou a ser outra vez conhecido, pois deste local os comunistas transferiram o Cardeal Stefan Wyszyński como prisioneiro (ele teve de mudar várias vezes de local, pois os comunistas queriam manter segredo sobre o seu paradeiro, para criarem o mito de que tinha morrido ou abdicado. Só que as pessoas descobriam onde ele estava e depois era o cabo dos trabalhos).
Quem sabe se no Verão não decidimos dar um salto até à Mazúria e aproveitamos para ver a Toca do Lobo? Pode ser interessante.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Czarnobyl
Que é como quem diz Chernobyl. Ontem estive a ouvir uma conversa interessante sobre o acidente em Chernobyl e como iss
o foi para a Polónia. Tudo começou quando alguém me perguntou se eu me lembrava de, em pequena, tomar lugol. Eu olhei para o meu interlocutor, muito surpreendida, pois nunca tinha ouvido falar de tal coisa. Contaram-me então que, após o acidente no reactor, todas as crianças até aos 17 anos tinham de tomar lugol. O lugol consiste num preparado à base de iodo, que ajuda na prevenção do cancro na tiróide (que era um dos grandes riscos de quem estava exposto à radiação). Logo a seguir ao acidente, a região do nordeste da Polónia começou a distribuir o remédio, mas rapidamente a distribuição se alargou a todo o país. Dizem que foi uma das melhores coisas que fez o então governo comunista, pois imediatamente todos tiveram acesso ao lugol. Em poucas horas, 18,5 milhões de crianças receberam o remédio. Na rua havia cartazes afixados a dizer para as pessoas irem aos centros de saúde levantar o preparado. Em princípio, todas as crianças polacas daquele tempo devem ter tomado isto.
Outra coisa que se tomava também era leite em pó. Desconfiava-se do leite, pois as vacas andavam a comer relva que podia estar contaminada. Coitadas das famílias, que naqueles tempos difíceis tinham de andar a arranjar leite em pó para os filhos. A minha sogra conta que a seguir à catástrofe, quando foi levar os filhos à escola, perguntou se naquele dia iam dar-lhes leite. Responderam-lhe com grande indiferença que claro que sim. Eles ficaram um pouco assustados, mas nada podiam fazer, porque naqueles tempos não era como hoje, que se pode chegar à escola e dizer: "Hoje não dêem leite aos meus filhos." O mais provável é que nos desprezassem e dessem o leite na mesma. Aliás, uma característica dos tempos do comunismo que já ouvi referir por várias pessoas (e aparece
também caracterizada no satírico filme Miś) é o facto de, em geral, nas lojas e nos serviços públicos as pessoas serem tratadas com muito desprezo. Não havia, de modo nenhum, a atenção pelo cliente que há hoje (não era o cliente tem sempre razão, mas mais o cliente nunca tem razão).
Voltando novamente a Chernobyl, a nível de contaminação, um ano depois os países mais afectados eram a Bulgária, Áustria, Grécia e Roménia. Neste gráfico (cliquem nele se o quiserem ver maior), a Polónia só aparece em 10º lugar, depois da Itália (quem diria?) e Portugal, claro, aparece quase no fim da lista. Actualmente não se sabem contabilizar as consequências de Chernobyl na Polónia, mas dá-me a sensação que não são muito grandes. Já passaram mais de 20 anos e não há efeitos escandalosamente visíveis. Dizem até agora que a toma do lugol não era indispensável, pois a Polónia nunca correu grande risco. A Ucrância e sobretudo a Bielorrúsia (nossas vizinhas) é que foram mais afectadas.
o foi para a Polónia. Tudo começou quando alguém me perguntou se eu me lembrava de, em pequena, tomar lugol. Eu olhei para o meu interlocutor, muito surpreendida, pois nunca tinha ouvido falar de tal coisa. Contaram-me então que, após o acidente no reactor, todas as crianças até aos 17 anos tinham de tomar lugol. O lugol consiste num preparado à base de iodo, que ajuda na prevenção do cancro na tiróide (que era um dos grandes riscos de quem estava exposto à radiação). Logo a seguir ao acidente, a região do nordeste da Polónia começou a distribuir o remédio, mas rapidamente a distribuição se alargou a todo o país. Dizem que foi uma das melhores coisas que fez o então governo comunista, pois imediatamente todos tiveram acesso ao lugol. Em poucas horas, 18,5 milhões de crianças receberam o remédio. Na rua havia cartazes afixados a dizer para as pessoas irem aos centros de saúde levantar o preparado. Em princípio, todas as crianças polacas daquele tempo devem ter tomado isto.Outra coisa que se tomava também era leite em pó. Desconfiava-se do leite, pois as vacas andavam a comer relva que podia estar contaminada. Coitadas das famílias, que naqueles tempos difíceis tinham de andar a arranjar leite em pó para os filhos. A minha sogra conta que a seguir à catástrofe, quando foi levar os filhos à escola, perguntou se naquele dia iam dar-lhes leite. Responderam-lhe com grande indiferença que claro que sim. Eles ficaram um pouco assustados, mas nada podiam fazer, porque naqueles tempos não era como hoje, que se pode chegar à escola e dizer: "Hoje não dêem leite aos meus filhos." O mais provável é que nos desprezassem e dessem o leite na mesma. Aliás, uma característica dos tempos do comunismo que já ouvi referir por várias pessoas (e aparece
Voltando novamente a Chernobyl, a nível de contaminação, um ano depois os países mais afectados eram a Bulgária, Áustria, Grécia e Roménia. Neste gráfico (cliquem nele se o quiserem ver maior), a Polónia só aparece em 10º lugar, depois da Itália (quem diria?) e Portugal, claro, aparece quase no fim da lista. Actualmente não se sabem contabilizar as consequências de Chernobyl na Polónia, mas dá-me a sensação que não são muito grandes. Já passaram mais de 20 anos e não há efeitos escandalosamente visíveis. Dizem até agora que a toma do lugol não era indispensável, pois a Polónia nunca correu grande risco. A Ucrância e sobretudo a Bielorrúsia (nossas vizinhas) é que foram mais afectadas.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Recuando uns dias: o 11 de Novembro
Dia 11 de Novembro é feriado nacional na Polónia. Celebra-se a festa da independência. Independência esta reconquistada após a Iª Guerra Mundial - depois de mais de um século de Polónia dividida entre Rússia, Prússia e Áustria. O grande herói destes tempos é o marechal Piłsudzki (curiosidade: ao contrário do que muitos pensam, a rua Marszałkowska em Varsóvia não deve o seu nome a este marechal).
Na véspera deste feriado, fomos convidados para uma festa de anos algo patriótica. Em casa dos nossos amigos, em pleno coração da cidade, gerou-se um ambiente bem engraçado. A mesa da comida estava decorada com bandeirinhas polacas (pena que não tirei nenhuma foto). Mas o original desta festa foi que todos fomos convidados para irmos lá cantar cânticos patrióticos polacos! Tinhamos à nossa disposição cancioneiros com as letras das músicas e um amigo dos anfitriões dava o tom para ninguém se enganar. Foi um verdadeiro convívio patriótico! O mais curioso é que, no meio daquelas músicas todas, havia uma que eu conhecia, porque aprendi no curso na Universidade de Varsóvia!
Deixo aqui para quem quiser ouvir uma das várias músicas que cantaram na festa, chamada My Pierwsza Brygada (nós, a primeira brigada), que era onde estava o Piłsudzki (e o bisavô do Stas também, por sinal).
Na véspera deste feriado, fomos convidados para uma festa de anos algo patriótica. Em casa dos nossos amigos, em pleno coração da cidade, gerou-se um ambiente bem engraçado. A mesa da comida estava decorada com bandeirinhas polacas (pena que não tirei nenhuma foto). Mas o original desta festa foi que todos fomos convidados para irmos lá cantar cânticos patrióticos polacos! Tinhamos à nossa disposição cancioneiros com as letras das músicas e um amigo dos anfitriões dava o tom para ninguém se enganar. Foi um verdadeiro convívio patriótico! O mais curioso é que, no meio daquelas músicas todas, havia uma que eu conhecia, porque aprendi no curso na Universidade de Varsóvia!
Deixo aqui para quem quiser ouvir uma das várias músicas que cantaram na festa, chamada My Pierwsza Brygada (nós, a primeira brigada), que era onde estava o Piłsudzki (e o bisavô do Stas também, por sinal).
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Powązki
Falando ainda a propósito do dia de Todos-os-Santos, não posso deixar de referir o cemitério de Powązki. É o cemitério mais antigo de Varsóvia e penso que um dos mais bonitos (não conheço os outros todos, mas imagino que sim). Nele encontram-se sepultados vários polacos famosos, sejam actores, escritores, juristas, artistas plásticos, músicos, etc. Muitas das campas e jazigos que lá há datam do século XIX. No dia de Todos-os-Santos ira Powązki é suicídio. As ruas à volta deste cemitério são fechadas, nas redondezas vemos placas de sinalização a indicar parkings provisórios criados especialmente para aquela ocasião e o trânsito para lá chegar também não anima. A solução é mesmo ir de eléctrico. Tentei ir lá no dia 2 de Novembro, já que dia 1 não foi possível, mas desistimos. Acabámos por ir uma semana depois, apesar de já não ser a mesma coisa. No próprio dia de Todos-os-Santos em Powązki concentram-se alguns polacos famosos a fazerem um peditório para a conservação e restauro dos túmulos de pessoas, conhecidas ou não, que por já não terem família, se estão a degradar. Pelo que percebi, se no dia 1 nos cemitérios normais já há grande confusão, então naquele deve ser um autêntico circo.
O cemitério de Powązki está rodeado por um cemitério judaico, um protestante e um muçulmano (dos tártaros, com túmulos também de séculos passados). Lá dentro, temos uma parte central com sepulturas antigas, uma zona chamada Aleja Zasłużonych, que se traduz mais ou menos por Avenida (ou Passeio) dos Meritórios, onde há uma espécie de corredor com vários cofres onde estão os restos mortais desses meritórios. Mais uma vez, como agora escurece tão cedo, não conseguimos fazer a visita ao cemitério tal como queríamos. Aqui ficam algumas fotos de Powązki (da parte civil, porque parece que também há um lado militar):
Uma inscrição à porta do cemitério: Quando se apaga a memória humana, passam a falar as pedras. Do Cardeal Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia.
A planta do cemitério.
Uma lápide com a inscrição: Aos soldados franceses que cairam na Polónia entre 1919-1921.


O cemitério de Powązki está rodeado por um cemitério judaico, um protestante e um muçulmano (dos tártaros, com túmulos também de séculos passados). Lá dentro, temos uma parte central com sepulturas antigas, uma zona chamada Aleja Zasłużonych, que se traduz mais ou menos por Avenida (ou Passeio) dos Meritórios, onde há uma espécie de corredor com vários cofres onde estão os restos mortais desses meritórios. Mais uma vez, como agora escurece tão cedo, não conseguimos fazer a visita ao cemitério tal como queríamos. Aqui ficam algumas fotos de Powązki (da parte civil, porque parece que também há um lado militar):
Uma inscrição à porta do cemitério: Quando se apaga a memória humana, passam a falar as pedras. Do Cardeal Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia.
A planta do cemitério.
Uma lápide com a inscrição: Aos soldados franceses que cairam na Polónia entre 1919-1921.

A igreja do cemitério. Duas fotos tiradas com tipo dois segundos de intervalo (só depois de tirar a segunda é que reparei que as luzes se acenderam!!
Breve resumo da história do cemitério:
Foi erguido (salvo seja) em 1790 numa propriedade cedida por um tal de Szymanowski. A igreja e catacumba foram construidas em 1792 de acordo com o projecto do arquitecto real Dominik Merlini. Foi ampliado 19 vezes. A sua ampliação terminou em 1971. Tem área de 43 hectares. A igreja foi reconstruida duas vezes: em 1847-1850 e 1890-1891. Durante a IIª Grande Guerra, a igreja e a catabumba foram destruídas, bem como muitos dos túmulos com significado histórico. Durante a ocupação alemã, o cemitério foi uma espécie de local de manobras do AK (o exército nacional clandestino, tipo resistência). Pelo cemitério conseguiam fazer passar alimentos para dentro do Gueto de Varsóvia. A igreja e a catabumba foram novamente construidas entre 1945 e 1976. No cemitério estão sepultados insurgentes e heróis polacos desde os tempos das partilhas da Polónia até à IIª Guerra. Num mausoléu estão cinzas de vítimas dos campos de concentração.
Foi erguido (salvo seja) em 1790 numa propriedade cedida por um tal de Szymanowski. A igreja e catacumba foram construidas em 1792 de acordo com o projecto do arquitecto real Dominik Merlini. Foi ampliado 19 vezes. A sua ampliação terminou em 1971. Tem área de 43 hectares. A igreja foi reconstruida duas vezes: em 1847-1850 e 1890-1891. Durante a IIª Grande Guerra, a igreja e a catabumba foram destruídas, bem como muitos dos túmulos com significado histórico. Durante a ocupação alemã, o cemitério foi uma espécie de local de manobras do AK (o exército nacional clandestino, tipo resistência). Pelo cemitério conseguiam fazer passar alimentos para dentro do Gueto de Varsóvia. A igreja e a catabumba foram novamente construidas entre 1945 e 1976. No cemitério estão sepultados insurgentes e heróis polacos desde os tempos das partilhas da Polónia até à IIª Guerra. Num mausoléu estão cinzas de vítimas dos campos de concentração.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Um momento de história: A Batalha de Grunwald
Este verão (que entretanto já acabou) só tivemos direito a um fim de semana de férias. Passámo-lo em Dąbrówno, uma vila na região da Mazúria, ladeada por dois grandes lagos. O sítio, devo dizer, é bastante giro. Nunca tinha passado férias (ainda que mini-férias) nos lagos, como cá se costuma fazer muito. E, de facto, gostei muito. Fizemos canoagem, andamos de barco a remos e só não nadámos porque estava uma aragem demasiado fresca.
Dąbrówno é uma vila histórica. Foi construída pelos cruzados no século XIV. Os cruzados, na sua luta contra os infiéis, vieram até esta zona da Europa e aqui se estabeleceram durante algum tempo. Apesar da Polónia ser um país cristão, tinha uma grande tolerância religiosa e entre os seus aliados contavam-se alguns povos vizinhos
de leste de outras religiões. Por isto, eram alvo de repetidos ataques por parte dos cruzados, também chamados cavaleiros teutónicos.
Os cruzados deixaram a sua marca em várias regiões da Polónia, onde se podem ver os fantásticos castelos que construíam. O maior deles todos está em Malbork. Passei por lá em Janeiro deste ano, mas já tarde demais para visitar ou sequer fazer fotos do exterior. O castelo de Malbork é património da Unesco e é o maior no mundo construído com tijolos. No séc. XIV era neste castelo que se encontrava o grão-mestre dos cruzados.
A vila de Dąbrówno fica muito perto de Grunwald, outra vila polaca de grande interesse histórico. Foi aqui precisamente que se deu aquela que por muitos é chamada de maior e mais sangrenta batalha da Idade Média. De um lado, os cruzados. Do outro, os exércitos polaco e lituano (e mais alguns aliados), chefiados pelo rei polaco Władysław Jagiełło. Esta batalha, da qual sairam vencedores os polacos, acabou com a presença dos cruzados na região da Polónia e foi o início do declínio da ordem, que mais tarde se veio a extinguir. Ao que parece, os polacos massacraram mesmo! Apesar de não haver consenso quando ao número de tropas de cada um dos lados, sabe-se que os polacos e os seus aliados eram mais que os cruzados. Ou seja, enquanto nesta altura os portugueses andavam entretidos a querer conquistar meio mundo, os polacos andavam a expulsar os cruzados do seu território. Uma ordem religiosa de cavaleiros que deviam defender a fé, acabou por ser derrotada por um reino cristão (será por o rei ter mandado celebrar duas missas antes da batalha?).
Todos os anos,
no aniversário da batalha (15 de Julho de 1410), realiza-se uma gigante encenação deste acontecimento no descampado de Grunwald. Ainda não tive oportunidade de assistir, mas espero algum dia conseguir lá ir. O terreiro onde se deu a batalha é enorme. Percebe-se que, de facto, era o sítio ideal. Actualmente, a zona continua aberta como antes. Apenas tem um museu subterrâneo e um ou outro monumento. Curioso o facto de estarem lá os restos de um monumento dedicado a esta batalha que estava em Cracóvia, mas que os nazis destruiram durante a guerra. Isto porque a maioria dos cruzados eram alemães.
A batalha de Grunwald ficou imortalizada por um famoso quadro do pintor polaco Jan Matejko, em exposição no Museu Nacional, em Varsóvia.

Entretanto, há uma semana vi um filme polaco dos anos 60 inspirado no livro de Henryk Sienkiewicz, chamado Os Cruzados. Mostra um pouco de como era a Polónia nesta época em que os cruzados dominavam uma parte do actual território polaco. É muito interessante. Apesar de ser uma obra de ficção, tem um background histórico. O filme mostra como os cruzados tinham começado a perder a essência religiosa da ordem e só queriam era fazer guerras. Termina com a batalha de Grunwald, é claro, e a vitória dos polacos sobre os "mauzões" cruzados.
Dąbrówno é uma vila histórica. Foi construída pelos cruzados no século XIV. Os cruzados, na sua luta contra os infiéis, vieram até esta zona da Europa e aqui se estabeleceram durante algum tempo. Apesar da Polónia ser um país cristão, tinha uma grande tolerância religiosa e entre os seus aliados contavam-se alguns povos vizinhos
de leste de outras religiões. Por isto, eram alvo de repetidos ataques por parte dos cruzados, também chamados cavaleiros teutónicos.Os cruzados deixaram a sua marca em várias regiões da Polónia, onde se podem ver os fantásticos castelos que construíam. O maior deles todos está em Malbork. Passei por lá em Janeiro deste ano, mas já tarde demais para visitar ou sequer fazer fotos do exterior. O castelo de Malbork é património da Unesco e é o maior no mundo construído com tijolos. No séc. XIV era neste castelo que se encontrava o grão-mestre dos cruzados.
A vila de Dąbrówno fica muito perto de Grunwald, outra vila polaca de grande interesse histórico. Foi aqui precisamente que se deu aquela que por muitos é chamada de maior e mais sangrenta batalha da Idade Média. De um lado, os cruzados. Do outro, os exércitos polaco e lituano (e mais alguns aliados), chefiados pelo rei polaco Władysław Jagiełło. Esta batalha, da qual sairam vencedores os polacos, acabou com a presença dos cruzados na região da Polónia e foi o início do declínio da ordem, que mais tarde se veio a extinguir. Ao que parece, os polacos massacraram mesmo! Apesar de não haver consenso quando ao número de tropas de cada um dos lados, sabe-se que os polacos e os seus aliados eram mais que os cruzados. Ou seja, enquanto nesta altura os portugueses andavam entretidos a querer conquistar meio mundo, os polacos andavam a expulsar os cruzados do seu território. Uma ordem religiosa de cavaleiros que deviam defender a fé, acabou por ser derrotada por um reino cristão (será por o rei ter mandado celebrar duas missas antes da batalha?).
Todos os anos,
no aniversário da batalha (15 de Julho de 1410), realiza-se uma gigante encenação deste acontecimento no descampado de Grunwald. Ainda não tive oportunidade de assistir, mas espero algum dia conseguir lá ir. O terreiro onde se deu a batalha é enorme. Percebe-se que, de facto, era o sítio ideal. Actualmente, a zona continua aberta como antes. Apenas tem um museu subterrâneo e um ou outro monumento. Curioso o facto de estarem lá os restos de um monumento dedicado a esta batalha que estava em Cracóvia, mas que os nazis destruiram durante a guerra. Isto porque a maioria dos cruzados eram alemães.A batalha de Grunwald ficou imortalizada por um famoso quadro do pintor polaco Jan Matejko, em exposição no Museu Nacional, em Varsóvia.

Entretanto, há uma semana vi um filme polaco dos anos 60 inspirado no livro de Henryk Sienkiewicz, chamado Os Cruzados. Mostra um pouco de como era a Polónia nesta época em que os cruzados dominavam uma parte do actual território polaco. É muito interessante. Apesar de ser uma obra de ficção, tem um background histórico. O filme mostra como os cruzados tinham começado a perder a essência religiosa da ordem e só queriam era fazer guerras. Termina com a batalha de Grunwald, é claro, e a vitória dos polacos sobre os "mauzões" cruzados.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Senhas de racionamento
Noutro dia, na aula de polaco, estivemos a ler um texto sobre a PRL - República Popular da Polónia, nome pelo qual a Polónia era conhecida durante o regime comunista (nome típico dos países comunistas). O texto falava sobre a vida do cidadão comum, a nível de consumos. Falava sobre as intermináveis filas em que as pessoas tinham de estar para conseguirem comprar alguma coisa. Apesar de todas as coisas que li e que são para mim de certa forma incompreensíveis (acho que para todas as pessoas que não viveram esta realidade, tudo isto soa a estranho), houve uma
que me fez pensar um bocado. Os polacos tinham de ficar em filas para comprar alguma coisa, mas se não tivessem senhas de racionamento, de nada lhes servia. Havia senhas para carne, açúcar, leite, manteiga, gasolina, etc. Por exemplo, cada família tinha direito a 3 kg de carne por mês. E aqui é que eu me fiquei. 3 kilos por mês é muito pouco. Nós cá em casa somos dois (quase três, mas este três ainda não conta) e consumimos à vontade mais de 3 kg de carne por mês. Comecei, então, a perceber certos hábitos alimentares dos polacos. O Stas já me tinha dito uma vez que nós comiamos muita carne, o que eu achei estranho, porque achei que comiamos o normal. Afinal, é tudo uma questão cultural, se é que assim se pode chamar. Os polacos em geral são capazes de fazer várias refeições sem carne, ou usando apenas carnes frias, por exemplo. No fundo, era tudo uma questão de sobrevivência; tinham de se desenrascar de qualquer maneira. A pouco e pouco vou juntando assim pequenas peças de um puzzle e vou percebendo mais algumas coisas dos polacos (sobretudo das gerações mais velhas).
que me fez pensar um bocado. Os polacos tinham de ficar em filas para comprar alguma coisa, mas se não tivessem senhas de racionamento, de nada lhes servia. Havia senhas para carne, açúcar, leite, manteiga, gasolina, etc. Por exemplo, cada família tinha direito a 3 kg de carne por mês. E aqui é que eu me fiquei. 3 kilos por mês é muito pouco. Nós cá em casa somos dois (quase três, mas este três ainda não conta) e consumimos à vontade mais de 3 kg de carne por mês. Comecei, então, a perceber certos hábitos alimentares dos polacos. O Stas já me tinha dito uma vez que nós comiamos muita carne, o que eu achei estranho, porque achei que comiamos o normal. Afinal, é tudo uma questão cultural, se é que assim se pode chamar. Os polacos em geral são capazes de fazer várias refeições sem carne, ou usando apenas carnes frias, por exemplo. No fundo, era tudo uma questão de sobrevivência; tinham de se desenrascar de qualquer maneira. A pouco e pouco vou juntando assim pequenas peças de um puzzle e vou percebendo mais algumas coisas dos polacos (sobretudo das gerações mais velhas).
segunda-feira, 10 de março de 2008
O dia da mulher durante o comunismo
Contaram-me este fim-de-semana uma particularidade interessante do dia da mulher na Polónia durante os tempos do comunismo. Diz que nesse tempo as mulheres não conseguiam comprar collants normalmente, porque não havia ou não tinham autorização para os comprar. Então, no dia da mulher, todas as mulheres tinham direito de receber um par de collants grátis. E, claro, tinham de assinar um registo em como tinham recebido os ditos para não haver aldrabices. Era assim que os comunistas presenteavam as mulheres polacas.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Retratos da Insurreição
Finalmente lá consegui tratar de toda a papelada respeitante à minha estadia aqui. Foi a coisa mais simples que existe. Agora, daqui a uns dias, terei de voltar lá para ir buscar a autorização de residência. Quando saí de lá, porque até vinha bem disposta, decidi tirar algumas fotos ao monumento dedicado aos combatentes da insurreição de Varsóvia, que é mesmo ali ao lado. Estamos em plena cidade velha, onde grande parte da acção da insurreição decorreu. Estes monumentos mostram alguns dos combatentes, salientando o facto de serem civis. Nesta foto aqui em cima, por exemplo, vê-se uma criança, talvez já adolescente, com um capacet
e que mal lhe serve. Aqui na outra foto vêem-se os resistentes a fugir pelas canalizações da cidade. Foi assim que muitos deles se salvaram (outros não, acho que dependeu de onde sairam, mas não tenho a certeza). Aqui nesta foto vê-se também um padre. Penso que em nenhum destes são retratadas mulheres, mas muitas estiveram também nas fileiras de combate da insurreição.Nesta zona fica um edifício que tem qualquer coisa a ver com o exército, não sei bem o que é. Quando passei por aqui e estava a fazer estas fotos, os militares polacos estavam a entrar para uns autocarros próprios. Deviam ir a algum funeral, ou algo do estilo
, porque na bagageira levavam montes de coroas de flores. Achei curioso o facto de eles estarem todos aperaltados, mas de sobretudo verde, igual à farda deles, com um cinto grosso e acastanhado na cintura. Muito elegantes lá iam eles. Acho que nunca tinha visto militares de sobretudo. O mais engraçado é que cada um deles que ia entrando no autocarro levava na mão um cabide! Imagino que fosse para pendurar o sobretudo, já que eles estavam impecavelmente passados a ferro.Estas duas placas nestas fotos são alusivas também à fuga dos resistentes da insurreição pelos esgotos da cidade. Em frente a este prédio, onde estão as placas, ficava
um dos (ou simplesmente "o") buracos por onde eles escaparam. Não consegui tirar boas fotos, porque o prédio está em obras e está tapado. Eu lá meti a mão por entre os andaimes e consegui tirar estas duas fotos. A primeira placa diz algo tipo: "Por este canal, após uma heróica defesa da cidade velha, foram desde o centro até Zoliborz (no norte da cidade) 5300 combatentes do grupo do norte". Se isto estiver mal traduzido, depois corrigo. A segunda placa mostra o trajecto que eles fizeram. Infelizmente, pelos motivos que já referi, não consegui chegar-me mais perto para ler melhor o que lá diz. Mas quando vierem cá visitar-me podemos passar por lá e ver as coisas melhor.
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