terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Neve, neve e mais neve!

De facto, neste momento na Polónia só se vê é neve. As temperaturas subiram e ficaram propícias a nevões. Nos últimos tempos já fiquei com o carro preso na neve algumas vezes, mas felizmente com algum jeitinho consegui sempre sair dessas situações. Também já experimentei a sensação pouco simpática de os travões não funcionarem tão bem como antes, mas graças a Deus sem consequências graves. Há pilhas de neve mais altas do que eu e há sítios por onde já nem me atrevo a passar, a não ser que queira encher a roupa toda de neve. O reverso da medalha é que temos direito a um Inverno branquinho, o que dá mais alento do que o Inverno cinzentão de quando não há neve. Giro, giro, foi ter visto o Vístula congelado! Olhava-se para ele e era uma massa branca de uma ponta à outra. Depois derreteu e voltou a ver-se a água, mas no domingo quando passámos a ponte estava tudo branco outra vez.

A vista de uma das pontes sobre o Vístula.

Uma estrada fora de Varsóvia no Domingo de manhã.

Um grupo de pessoas a andar em trenós puxados por um tractor, brincadeira típica no campo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dia de sorteio

Sábado de manhã ia eu muito bem de carro pela rua Żwirki i Wigury, que liga o aeroporto mais ou menos ao centro da cidade, e vejo em cada candeeiro três bandeirinhas: uma da Polónia, uma com o logo do Euro 2012 e uma da Ucrânia. Pensei logo que haveria alguma coisa, ou que alguém importante chegasse naquele dia. Afinal foi dia de sorteio para as eliminatórias do Euro e diz que o Queirós esteve por cá. Alheada como estou, se não fosse pelas bandeirinhas, nem tinha dado por nada...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma ópera polaca

Ontem fui à ópera. Já não ia desde antes da Teresa nascer. Lembro-me que quando faltava um mês para o fim do tempo, fomos várias vezes (cheguei a ir de almofadinha, para ver se ficava mais confortável, por causa do barrigão). Talvez por isso a Teresa goste tanto de música. Desta vez, fomos ver uma ópera de um compositor polaco, Stanisław Moniuszko, chamada Straszny Dwór (a mansão assombrada). É uma obra muito conhecida na Polónia, mas pouco no estrangeiro. Do que percebi, isto deve-se ao facto de na altura ter sido abafada. Apesar de não ser este o enredo principal, numas entrelinhas muito óbvias podemos ler a exaltação de valores, como o amor à pátria e à Igreja Católica. Moniuszko viveu no séc. XIX, numa altura em que a Polónia estava repartida pela Rússia, Áustria e Prússia. Ora, neste contexto político, uma ópera polaca que exaltasse estes valores não era propriamente bem vista. Straszny Dwór estreou em Varsóvia em 1865, mas não passou das três apresentações. O czar da Rússia não gostou e apressou-se a censurá-la. Moniuszko acabou por morrer sem nunca mais ver o seu trabalho em cena.
A história da Mansão Assombrada é engraçada e em geral pareceu-me tudo muito bem feito, cenários, roupas, etc. Para um estrangeiro tem piada, porque apresenta um pouco da Polónia do séc. XIX, tradições, costumes, etc. Gostei sinceramente. Saliento apenas um momento no VI acto em que dançaram uma mazurca, dança típica polaca, ritmada, que se popularizou bastante precisamente no séc. XIX. Foi um dos melhores momentos do espetáculo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Vinhos portugueses na Biedronka

Ontem uns amigos disseram-nos que na Biedronka havia uma feira de vinhos portugueses até dia 8 de Fevereiro. Saltámos logo do nosso sofá e fomos lá ver se havia algo interessante. Encontrámos, de facto, vários vinhos e a preços bastante bons, tendo em conta os preços de outros supermercados. Trouxemos para casa Porta da Ravessa e mais uns quantos de que nunca tinha ouvido falar, da Beira e do Alentejo. Achei curioso todos eles terem a etiqueta atrás em polaco.
Adicionalmente, vimos também lá à venda pastéis de nata, mas desta vez em embalagens muuuuuito mais pequenas e com um preço totalmente injustificado. Por isso e porque há dias vi uma receita que me pareceu boa, decidimos não comprar. Qualquer dia experimento fazer em casa.

Continuo com uma imagem muito deprimente da Biedronka... Chão todo badalhoco (ok, com a temperatura a aumentar e a neve a derreter percebo que é difícil ter o chão limpo, mas há limites...), tudo caótico... enfim, fica-se mesmo sem vontade de lá voltar. Perguntei a esses amigos que nos falaram dos vinhos se a Biedronka deles também era assim. Disseram que felizmente não é suja como esta, o que me deu alguma esperança de encontrar um destes supermercados com um ar minimamente aceitável.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Arbeit macht frei

Mesmo sem a conhecida placa introdutória do campo de concentração de Auschwitz, comemoram-se hoje os 65 anos da libertação deste campo pelo Exército Vermelho.
No Outono de 1944, os nazis começaram a operação para encerrar Auschwitz, queimando ficheiros, destruindo provas (entre as quais fornos crematórios) e transferindo prisioneiros para campos de concentração na Alemanha. A 27 de Janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho chegou, libertou apenas 8 mil prisioneiros, entre os quais 500 crianças, doentes e esfomeadas. Muitos apressaram-se a voltar a casa, outros ficaram em hospitais das redondezas e alguns acabaram por morrer de exaustão.
Hoje, em Auschwitz, vão estar mais de 150 s0breviventes a participar na comemoração do fim deste pesadelo. Entre eles estará Anna Stachowiak, na altura uma criança. Originária de Poznań, viu-se obrigada a fugir para Varsóvia com a mãe e os irmãos após o massacre de Katyń, onde o pai foi assassinado. Viveram numa casa em Ochota, de onde pouco saíam e quase não se afastavam. Anna tinha uns 6 anos e ia-se familiarizando com a guerra. Ouvia as conversas dos adultos e sabia o que podia ou não fazer. Nas ruas volta e meia os soldados nazis apanhavam pessoas para as levar para campos de concentração e tinham de ter cuidado com isso.
Durante a Insurreição de Varsóvia, como represália, os alemães prenderam muitos civis, entre os quais Anna e a família. Foram todos enviados para Auschwitz. À chegada foram separados; a mãe para um lado, o irmão para outro e Anna e a irmã para outro.
Auschwitz visto pelos olhos de uma criança é algo que impressiona. O testemunho desta senhora é incrível. Alguns meses depois, a mãe e o irmão partiram na chamada Marcha da Morte, parte do plano alemão para encerrar o campo antes da chegada dos russos. Dias depois, quando chegaram os soldados vermelhos, Anna e a irmã foram levadas para casa de uma prisioneira que morava nas redondezas, mas daí seguiram para o hospital de Cracóvia, tal era o seu estado. Aí permaneceram vários meses até ficarem bem. O que aconteceu depois não sei. Imagino que Anna tenha ido para a escola e tentado ter uma vida normal. Diz que durante anos não conseguia ouvir alguém falar alemão sem ficar afectada, até a nível de saúde. Agora, há já uns anos, conseguiu enfrentar os seus traumas e trabalha numa fundação que contacta com ex-prisioneiros de campos de concentração. E hoje vai lá estar, outra vez, a olhar para ao barracão onde passou tantos dias e tantas noites.
A mãe de Anna acabou por morrer na Alemanha, mas o irmão sobreviveu à guerra. Conseguiu estudar e arranjar trabalho. No entanto, o facto do pai ter morrido em Katyń prejudicou-o a nível profissional, pois os comunistas perseguiam todos os polacos patriotas, fossem membros da AK (resistência), familiares das vítimas de Katyń (afinal de contas, vítimas dos comunistas), membros da legião de Piłsudski, ou quaisquer outros que apoiassem a Polónia livre. O irmão de Anna acabou por não conseguir ter uma vida muito normal devido aos traumas que trouxe do tempo da guerra.

Esta é apenas uma de tantas e tantas histórias relacionadas com Auschwitz. Infelizmente a maioria delas não acaba tão bem como esta, tendo em conta que Anna e os irmãos sobreviveram. Lembro-me de ouvir contar na família do Staś de alguém que esteve num campo de concentração e que quando escrevia cartas à família não podia dizer que algo estava mal, então tinha de escrever com um certo código. Dizia que a comida era boa e coisas do estilo, que todos obviamente sabiam ser mentira. Certo dia, escreveu a perguntar como estava uma tal tia, pois tinha ouvido dizer que estava doente. Naquele momento a família percebeu que ele estava doente, pois não havia nenhuma tia com aquele nome (que, aliás, era o nome dele escrito no feminino). Felizmente foi libertado e voltou para junto da família. Dele ainda se guarda uma bolsinha que trouxe ao pescoço no campo de concentração, com relíquias de Santa Teresinha.

Hoje está frio e neva. Há 65 anos atrás, quando o Exército Vermelho entrou em Auschwitz, o dia também estava assim. Recordações tristes da história da Polónia e da Europa.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Séc. XVII: Jan Kazimierz em Portugal?

No sábado recebi um sms de alguém a dizer-me que na Antena 2 estava a dar um programa sobre música polaca. Já não era a primeira vez que recebia um sms daqueles, mas da outra vez não tinha tido oportunidade de ouvir. Desta vez, através da internet ligámos a Antena 2 e ouvimos. Ao que parece, é um ciclo de programas sobre a música polaca ao longo dos séculos. Neste programa que ouvimos particularmente interessante foi uma referência que fizeram ao rei polaco Jan Kazimierz. O Staś quando ouviu também ficou surpreendido, porque não sabia aquilo.
Jan Kazimierz viveu entre 1609 e 1675, época em que Portugal passou do domínio dos Filipes espanhóis à independência. Antes de ser rei, Jan Kazimierz teve um percurso um pouco atribulado. Entre algumas peripécias, em 1638 viajou até Espanha, pois preparava-se para aceitar o cargo de vice-rei de Portugal. Porque motivo nunca ouvimos falar dele? Porque os seus planos sairam furados e acabou por nunca o ser. Durante a viagem foi preso em França pelo cardeal Richelieu, acusado de ser um espião espanhol. Quase dois anos depois foi libertado graças à intervenção de um deputado do Sejm polaco e já não foi para Espanha (até porque entretanto o panorama em Portugal tinha-se alterado). Ou seja, por pouco ainda tínhamos um vice-rei polaco em Portugal!
A ver se no próximo sábado consigo ouvir novamente o programa para descobrir mais coisas interessantes.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Os polacos do ocidente falam melhor

Enquanto lia uns textos interessantes sobre a repatriação dos polacos no final da IIª Guerra Mundial, deparei-me com uma informação bastante curiosa. Parece que os habitantes da região ocidental da Polónia são os que falam polaco mais correctamente. Quem o diz é o professor Jan Miodek, importante linguista da Universidade de Szczecin.
Em 1944, os polacos que viviam na actual região da Lituânia, Bielorússia e Ucrânia (na altura territórios polacos) foram "convidados" a deixarem as suas terras e irem para a Polónia. Deu-se isto em consequência da Conferência de Teerão, na qual Stalin, Churchill e Roosevelt decidiram como seriam as novas fronteiras da Polónia após a guerra. Ou seja, os que viviam nos territórios orientais retirados à Polónia tiveram de ir para os territórios ocidentais, retirados à Alemanha.
Então, segundo dizem, a nata de Lvov e Vilnius, entre outras, passou a ocupar a região que foi "des-germanizada" e "polonizaram-na". Segundo estudos feitos nos anos 90, em Wrocław, Zielona Góra, Szczecin e Koszalin as pessoas falam usando uma linguagem literária, mais correcta que a da maioria dos polacos. Mas não é só aqui que se fala de maneira um pouco diferente. Contaram-me há tempos que as colónias de emigrantes polacos no Brasil, EUA e Canadá falam um polaco semelhante ao que se falava no séc. XIX ou início de séc. XX (na altura em que muitos polacos emigraram para o novo continente). Dizem que usam uma linguagem mais correcta, menos coloquial. Gostava muito de poder ver na prática estas diferenças, mas para já ainda não tive essa oportunidade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A cidade coberta por um manto branco

Desde o início do ano (pelo menos desde dia 3, que foi quando regressei) a neve tem sido uma constante. Há dias em que neva muito, outros menos. O resultado disto são pilhas de neve por tudo quanto é sítio. Para mim é um espetáculo, adoro o tempo assim. É lindíssimo! No entanto, há dias alguém disse que há 20 anos não via tanta neve. Achei que seria um bocado exagero. Mas quando a minha sogra me mostrou o quintalzinho dela e disse que não se lembra da última vez que se formaram montes de neve como os que lá tem agora - e na sogra temos sempre de acreditar! - comecei a achar que isto afinal não é tão normal como eu pensava. Já passei cá vários Invernos e de facto se calhar nunca apanhei assim tanta neve. Já temperaturas tão baixas como as de Dezembro foi a primeira vez (no primeiro ano em que vim para cá apanhei um dia com -12ºC e foi uma excepção). E, claro, todos continuam a gozar com o aquecimento global...
No Domingo nevou tanto que algumas das principais ruas de Varsóvia estavam completamente brancas (refiro-me ao alcatrão mesmo). Numa rua, carros estacionados há vários dias tinham neve até quase meio da porta. Uma coisa incrível!... Mas giro que se farta. Nesse dia levámos a Teresa a andar de trenó pela primeira vez. Ao princípio gostou, mas depois quando começámos com ideias mais arrojadas, de deslizar por uma montanhinha, ela já não achou piada. Hoje voltei a ir com ela ao trenó, mas ela não estava de todo para ali virada. Aliás, nem na neve estava com vontade de andar. A reacção dela foi muito semelhante à que teve quando fomos à praia pela primeira vez e não queria estar na areia. E de facto em alguns aspectos a neve assemelha-se à areia da praia. Enfim, se fosse por mim, eu própria tinha rebolado na neve, descido as montanhinhas de trenó e feito mil e uma parvoíces. Mas a minha querida filha achou que aquilo não tinha grande piada e enquando não chegámos à entrada de casa (que não tinha neve nenhuma), não ficou contente.

Quando estivemos agora em Portugal, enquanto se discutia a eterna questão de voltarmos para lá, comecei a pensar no que é que havia cá que me fosse fazer realmente falta. E naquele momento, a primeira coisa em que pensei (até porque estávamos no friozinho invernoso) foi na neve. É verdade, acho que me vai fazer muita falta um Inverno sem neve. Nestes dias frios e curtos, a neve traz uma alegria e um alívio muito oportunos. Foi das melhores coisas que ganhei com vir para a Polónia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Pianista

Durante a nossa estadia em Lisboa li o livro "O Pianista", que deu origem ao filme com o mesmo nome. Nunca tive coragem de ver o filme, pois achava que seria demasiado brutal e forte. A minha cunhada, que me emprestou o livro, preveniu-me logo que era intenso. Mas mesmo assim eu quis ler.
A história é contada na primeira pessoa. O pianista polaco Władysław Szpilman escreveu-o pouco tempo depois de terminar a Segunda Guerra Mundial. É a sua experiência pessoal, tudo aquilo por que passou. E, como já esperava, a história é impressionante. Não se trata de nenhum herói incrível da guerra, mas de um homem normal, como tantos outros, judeu, que lutou pela sua sobrevivência até ao limite. Só que ele, ao contrário de tantos, conseguiu sobreviver. Como refere o alemão que o encontra quase no fim da guerra, Deus quis que ele sobrevivesse. Depois de ler o livro, não consigo mesmo arranjar outra explicação para além desta.
Ontem decidi ver o filme; agora que já conhecia a história não haveria de causar tanto impacto. Apesar do excelente desempenho do actor principal (que até lhe valeu um oscar), devo dizer que fiquei desiludida. Normalmente isto acontece quando se lê um livro e depois vê o filme. Mas o que me irritou é que apresentavam muitos factos incorrectos, como por exemplo, certas situações que Szpilman observou apareciam no filme como tendo-lhe acontecido a ele. Enfim, não vou descrever todas as incoerências. Apenas queria dizer que o livro é incomparavelmente melhor que o filme (apesar do filme também ser bom... só não é lá muito verdadeiro).
Para mim, a leitura foi particularmente interessante pelo facto da história se passar em Varsóvia. Szpilman vai descrevendo locais, referindo ruas, cinemas, sítios que sei onde são! Fala do centro e de Mokotów, um bairro que conheço bem. Gostei também muito de ver um pouco como era a vida na cidade naquele tempo, antes e depois da guerra. Szpilman conta algo que eu já tinha ouvido dizer: que Varsóvia era uma cidade vaidosa, cosmopolita, elegante e com boa vida social. Depois, vai descrevendo a transformação gradual a partir do momento em que os nazis a ocupam. Como judeu que é, Szpilman vai seguindo as restrições que a pouco a pouco vão sendo impostas a esta comunidade. Mais tarde, já no gueto, mostra com grande realismo como se vivia ali. Algo que sempre me intrigou foi o facto de haver pessoas que viviam normalmente em Varsóvia durante estes anos mais terríveis. A partir da fuga do gueto, Szpilman aqui e ali vai deixando uns lamirés sobre isto. Ao descrever a sua situação e o que ia observando pela janela e dentro dos prédios, pode-se perceber um pouco como viviam os polacos "arianos", que podiam viver normalmente nas suas casas. Até ao momento em que começou a Insurreição de Varsóvia, quando todos (ou quase todos) fugiram. Szpilman mostra a verdade nua e crua, sem fantasias nem acusações, e conta como havia diferentes tipos de judeus no gueto, desde os que viviam como lordes no meio da miséria dos outros, até aos que colaboravam com os nazis e colaboraram na deportação e assassinato de muitos. Refere também a chegada de tropas de ucranianos e como estes eram sanguinários. Disto já tinha ouvido alguns polacos falar (até dizem: como é que se explica que nos territórios da Ucrância que pertenciam à Polónia não existe praticamente ninguém etnicamente polaco? Foi uma chacina desgraçada... Mas disto falarei noutra altura). O que não sabia é que também havia tropas lituanas que agiam da mesma maneira. Quereriam eles vingar-se dos polacos por estes possuírem terras que eles consideravam suas?
O que gostei neste livro é o estilo natural com que foi escrito. Não nos apresenta um ponto de vista histórico nem tendencioso. Aliás, quando foi publicado pela primeira vez, teve alguns pormenores alterados, como o facto de Szpilman ter sido ajudado por um alemão (na primeira edição aparecia austríaco). Depois, chegou mesmo a ser proibido pelos comunistas e só nas últimas décadas é que voltou a ser publicado, desta vez na versão original. Recomendo sinceramente, vale a pena ler.

Fotos: A primeira foi tirada em 1946 e a segunda em 1942, para o documento de identificação obrigatório durante a ocupação nazi.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Depois das festas

Já chegámos a casa depois de uma semana e meia em casa. Espera... há aqui alguma coisa que não bate certo...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O meu record pessoal: -19ºC!

Há umas semanas ouvi alguém dizer que antes do Natal as temperaturas iam chegar aos -20ºC. Achei um bocado exagero. Mas na semana passada, quando dei por mim a achar que -10ºC não era assim tão mau, percebi que devia haver algo de errado. Quando as temperaturas estão tão baixas, chega-se a um ponto em que -10ºC não é muito diferente de -15ºC. É apenas horrivelmente frio. Andar na rua sem luvas, chapéu ou cachecol é absolutamente impensável. E os carros... Bem, os carros lá vão andando, mas alguns com dificuldade. Ainda hoje uma vizinha me veio bater à porta à procura do Staś porque o carro dela não queria pegar (e ele já a tinha ajudado dois dias antes). Felizmente nós não tivemos problemas desse estilo. No sábado ao fim da tarde fora de Varsóvia apanhei -19ºC, o meu record de sempre. Não senti ao certo o que isso foi, porque foi só o tempo de entrar no carro. Mas daquilo que senti com as outras temperturas do estilo, tenho mesmo muita pena de quem não tem carro. É que andar na rua assim é uma tortura, sobretudo quando se tem de estar parado à espera de um autocarro ou eléctrico. O mais interessante aconteceu na 6ª feira quando trouxe do carro a mochila da Teresa (com fraldas, dodots e afins), que deixo sempre lá para qualquer emergência, e a embalagem de toalhitas parecia um tijolo! Tinha congelado! Fez-me muita impressão, porque ainda não tenho aquele instinto de não deixar certas coisas no carro que se podem estragar com o frio. Como ontem, em que queria deixar um ramo de flores de que iria precisar mais tarde e preveniram-me logo que não fizesse isso. A verdade é que realmente tudo o que tiro do carro agora está absolutamente gelado. O que vale é que hoje a temperatura subiu uns 10ºC em relação ao que estava ontem à noite, mas mesmo assim está um briole desgraçado.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Retratos da neve

Pormenor de uma árvore que foi cortada na Primavera, numa altura em que houve ventos muito fortes e ou alguém a cortava, ou ela se partia e caía em cima de alguém. Agora ficou um cucuruto entraçado.

Uma chaminé num telhado vizinho, provavelmente desactivada - senão não tinha neve em cima nem à volta.

A minha salsa, coitada... Não é que eu tratasse muito dela, mas mesmo assim faz alguma pena...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Kolęda, pronomes e factos sobre Portugal

. Ontem recebemos a kolęda, visita dum padre da paróquia a nossa casa por ocasião do Natal. Ele entra, faz uma pequena oração, benze-nos a casa com água benta e depois senta-se um bocadinho à conversa. Aqui na nossa zona moram muitos antigos comunistas (eram os que tinham dinheiro depois da queda do comunismo para comprar casas nestes prédios), que não gostam desta visita. Há dois anos arrancaram o papel que avisa da vinda do padre da porta, para ninguém estar preparado para o receber. Já é o terceiro ano que recebemos a kolęda e, ao contrário do que acontece em casa de outras pessoas minhas conhecidas, o padre gosta sempre de se sentar um bocadinho a conversar. Às vezes desabafa a contar como o trataram mal noutras casas. Mas este ano não houve lamúrias. Veio um padre jovem, muito simpático, com quem ainda ficámos a falar um bocado, muito naturalmente. A Teresa também gostou dele.

. Uma coisa a que ainda não me habituei é o facto dos polacos escreverem os pronomes que se referem aos outros com letra maiúscula. Por causa disto, posso criar mal entendidos. Ou seja, tenho sempre de escrever "Te, Tu, Ti", etc. Custa é um bocadinho a habituar...

. Uma prima do Staś está a fazer um trabalho para o liceu sobre Portugal. Fez-me várias perguntas sobre factos que encontrou na internet e queria confirmar. Perguntou, por exemplo, se era verdade que os portugueses demoram sempre muito tempo a despedir-se, que respondem sempre que está tudo bem quando lhes perguntam, que comem várias refeições por dia. Depois houve também alguns factos meio estranhos que ela encontrou (não sei que sites andou ela a ler) que tive de negar. Tipo que os portugueses dormem umas três horas depois do almoço (era bom!...), que a hora de almoço no trabalho era entre as 12h e as 14h30 (imagine-se!...), que o Grândola Vila Morena era uma espécie de hino nacional e a canção mais popular (não exageremos... não lhe retiro o carácter histórico que tem, mas daí a ser hino nacional ou a mais popular é um bocado exagero). Digamos que foi uma conversa engraçada.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sou outra vez tia!... ou será que devo dizer ciocia?

Ontem pela quarta vez na vida fui tia. Desta vez pelo lado polaco da família. As últimas semanas foram de grande stress, porque a pequena Marysia não estava a querer sair de dentro da mãe. Mas por fim lá se decidiu, com um empurrãozinho, a vir conhecer-nos. Agora quando a vamos ver é que é pior... A Teresa está meio constipada e mesmo que não estivesse no hospital não permitem visitas por causa das gripes e afins. Vai ter de ficar para um pouco mais tarde, mas espero que ainda antes do Natal.
E por ser a minha primeira sobrinha polaca, tenho de deixar pelo menos algumas felicitações em polaco:

Gratuluję rodzicom i całej rodzinie Marysi! :)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Agora sim: está frio!

Se nos últimos tempos já tinha sentido vontade de me queixar do frio, então agora não sei o que dizer. Hoje chegou verdadeiramente o Inverno. Ontem já tinha estado fresco, mas hoje estivemos o dia todo abaixo de zero. Volta e meia caem uns floquinhos de neve, mas nada de especial. Os carros é que sentem mais isto, sobretudo os que - como o nosso - ainda andam com pneus de Verão. Hoje tive de andar um bocado na rua sem uma luva (a minha tendência para perder uma luva voltou a revelar-se... Felizmente acabei por a encontrar!!) e a minha mão ia congelando. Nem pensar em tirá-la do bolso. Com o frio que está não admira que a minha sobrinha polaca tenha decidido que não quer nascer e esteja a fazer a vida negra aos pais, que andam num stress desgraçado à espera do grande dia.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Visitas

Nos últimos tempos temos tido várias pessoas a passar por nossa casa. É sempre bom receber família e amigos, apesar desta época do ano ser particularmente ingrata, pois a maior parte do tempo não apetece passear na rua e há pouco que visitar. Em geral a temperatura tem-se mantido sempre acima de zero, por volta dos cinco, mais ou menos. Eu já estou mais ou menos habituada a isto e quando tenho de andar a pé na rua, ando no meu ritmo acelerado e muitas vezes até tenho calor. Mas andar em passo de passeio é impossível. Experimentámos no sábado e o resultado não foi bom. Nesse dia íam ligar as iluminações de Natal nas ruas da Stare Miasto e ía haver um concerto ao ar livre. Nós, que tínhamos ido almoçar por ali, ainda tentámos esperar pelo começo do espetáculo, só que na altura pareceu-nos impossível aguentar 45 minutos* ao frio para ver luzes de Natal. Ainda perdemos algum tempo a ver uma feira que montaram no Rynek - com coisas muito giras para presente - e já foi muito. Tentei aquecer-me com um chocolate quente, mas nem isso foi suficiente para me descongelar os pés e as mãos. É um engano, vejo temperatura acima de zero e acho que não está tanto frio. O segredo é ter sapatos bons, com sola grossa para isolar bem do frio (algo que naquele dia eu não tinha).
Frio à parte, até se tem vivido bastante bem por aqui. Casa quentinha (à excepção de quando as visitas nos abrem as janelas dizendo que está quente demais), boa saúde, tudo tranquilo, apenas a expectativa de conhecer a minha primeira sobrinha polaca, que não está com grande vontade de vir ver o mundo cá fora.
Enfim, pouco há para dizer. As próximas semanas serão dedicadas a compras de Natal e lentamente à preparação da nossa viagem até terras lusas. Já não falta muito tempo.
______________
* Sim, acabámos de almoçar e as luzes de Natal íam ser ligadas daí a pouco. Já estamos naquela altura do ano em que às 16h já é noite.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Retratos do céu de Varsóvia

Não tenho tido muito tempo para blogar, por isso - para não deixar o blog ao abandono - deixo aqui duas fotos do céu de Varsóvia ontem, ao fim da tarde e à noite.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Retratos de Sulejówek

No Domingo esteve um dia muito manhoso, com muita chuva. Sem sabermos muito bem o que fazer, decidimos ir dar uma volta de carro por algum sítio interessante. Pegámos no mapa e começámos a olhar para os arredores de Varsóvia, à procura de uma direcção para onde não tivessemos já ido passear. Deparámo-nos com Sulejówek, uma vila a leste de Varsóvia. Há uns tempos tínhamos lido algo sobre a casa que o Piłsudski lá tinha. Decidimos assim tentar a nossa sorte para aqueles lados, à procura de qualquer coisa de interesse.
Sulejówek não tem muito que se lhe diga. É a típica zona suburbana, sem nada de especial. No entanto, lá pelo meio há uma ou outra casa digna de se ver. Uma delas é a do Piłsudski. Por sorte, está aberta só ao sábado e ao domingo, pelo que pudémos visitá-la.
Quando se começou a retirar um pouco mais da vida política, o marechal Piłsudski mudou-se para Sulejówek. A mulher dele encontrou lá uma casa boa para o casal e as duas filhas pequenas. Um par de anos depois, o exército polaco construiu outra ao lado, como agradecimento por tudo o que o marechal fez pela pátria. Piłsudski morreu poucos anos antes do início da IIª Guerra Mundial. Com a invasão da Polónia pelos alemães e pelos russos em 1939, a viúva pegou nas filhas e fugiu para Inglaterra, deixando a casa de Sulejówek ao cuidado de familiares próximos. Depois da guerra, os comunistas fizeram questão de dispersar essas pessoas e transformaram a casa num jardim infantil. Só há poucos anos é que conseguiram recuperá-la. Existe o projecto de fazer ali um museu, mas para já ainda está tudo muito provisório, pouco há para ver. A fase de jardim infantil alterou bastantes coisas no interior da casa e, apesar de agora já estar muito parecido ao que era, ainda pode ser melhorado. O piso de cima, por exemplo, não pode ser visitado por funcionar ali a administração da "casa-museu". O plano é passar essa administração para a casa antiga, lá ao lado, mas primeiro que isso aconteça... Essa casa está abandonada e aparentemente em muito mau estado.
O senhor que toma conta daquilo é um bom guia, que vai contando muitas coisas. Falou, entre outras coisas, da estadia do Piłsudski na Madeira, recomendada pelo médico, para ver se se tratava com os bons ares da ilha (tinha um câncro no fígado).
Mas, para já, deixo aqui algumas fotos do local.


A casa construída pelo exército polaco para o Marechal Piłsudski

Originais de livros escritos pelo Piłsudski nesta casa de Sulejówek

Toalha de mesa que trouxe da Madeira para a mulher como recordação

Algumas peças do serviço de loiças feito exclusivamente para ele (têm desenhadas as suas iniciais: JP)

A primeira casa onde viveu a família, antes de construirem a outra ao lado

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma enfermaria em casa

Os últimos tempos têm sido de loucos. Com o tempo que tem estado por aqui, não foi de estranhar que a nossa casa acabasse por se tornar num hospital. O Staś e a Teresa a antibiótico, só eu é que me escapei (fiquei-me pelas "mézinhas"). Só que, para além de ter de servir de enfermeira a tempo inteiro, tenho estado com uns trabalhos para fazer, o que me rouba todo o tempo livre.
No início das doenças, quando fomos às urgências do centro de saúde e o Staś pediu ao médico para lhe passar um atestado, pergunta-lhe o médico: "Quer 5 ou 7 dias (úteis)?" Ele respondeu 5. Fiquei logo toda contente. Boa! Uma semana em casa! Comecei logo a dizer que podíamos ir aqui e ali. Ele, muito surpreendido, diz-me que a ideia é ficar em casa de cama. Achei um bocado exagero, mas lá aceitei que iamos ficar uma semana enclausurados. Pensei que eram mariquices de polacos. Entretanto a Teresa também adoeceu. Foi então, com estas idas todas ao médico e tal, que percebi que cá as pessoas levam a sério tomar antibiótico. Não é como em Portugal, que a pessoa mesmo com antibiótico vai trabalhar e faz a vida normal. Pelo menos comigo era assim. Só que cá, com o clima desta época do ano, é um risco andar na rua durante o tratamento. Isto porque é muito fácil ter uma recaída. Eu, que também estive meio adoentada, tive de sair uma ou outra vez de casa e senti que esses "passeios" não me ajudaram grande coisa. Ou seja, na Polónia, quando temos alguma constipação mais forte, é melhor não se armar em herói e querer fazer a vida normal. Bem, mas felizmente o pior já passou.