quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

As aulas de desenvolvimento geral

Como já tinha prometido antes, hoje vou escrever sobre as aulas a que a Teresa vai uma vez por semana. São chamadas aulas de "desenvolvimento geral" e destinam-se a crianças desde um ano e meio até aos 3 anos. No nosso grupo há crianças desde os 2 e quase meio até aos 3. Ao princípio, todas as mães estavam presentes na sala com as crianças; agora, só algumas é que ainda estão. A ideia é habituar a criança a estar sozinha, para não estranhar quando for para a escola. O esquema das aulas é simples: na primeira parte cantam-se umas músicas que são iguais todas as semanas (todas as crianças já as sabem de cor e para eles tem piada, é aquele ponto fixo das aulas), depois a professora ensina umas rimas ou alguma canção nova. Geralmente são brincadeiras de roda. Depois disso fazem um comboio e cantam uma música (sempre a mesma), enquanto se dirigem para outra sala onde fazem trabalhos plásticos. Às vezes são pinturas, outras vezes colagens, mas todas as semanas é algo diferente. Esta semana, as crianças decoraram coroas, que a professora no fim armou à medida da cabeça de cada um. Depois disso, na parte seguinte da aula, as crianças estiveram a brincar e dançar com as coroas na cabeça e divertiram-se muito. Nesta última parte da aula geralmente há jogos com música, às vezes brincadeiras com instrumentos musicais, outras vezes ainda actividades que desenvolvem diferentes aspectos da criança (por exemplo, coisas minuciosas que a criança tem de fazer com jeitinho com os dedos, jogos de memória, desenvolvimento dos músculos da cara - soprar, etc). No fim, toca uma música relaxante e cada mãe massaja o seu filho com uma bola própria de massagens. A criança fica ali a relaxar, às vezes querem ser eles a massajar as mães. Quando acaba a música, cantam uma canção de despedida e a professora carimba na mão direira de cada um um animal (que todas as semanas é diferente e também de cor diferente). Eles adoram!
O nosso balanço dos meses em que lá andamos (desde o início Outubro, parece-me) é muito positivo. A Teresa adora, até porque antes e depois da aula pode brincar à vontade na zona de brincadeira livre. Eu também não me posso queixar, tem imensa piada assistir às aulas e ver também o desenvolvimento de todas aquelas crianças ao longo dos meses. Para além disso, as mães entre si também vão criando laços e aproveitam enquanto os filhos estão entretidos para "bater um papo". Em suma, é um dos dias preferidos da nossa semana!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um toque de Primavera em nossa casa...

... mesmo sendo as flores de plástico, já dão alguma cor e vida ao local.

Será que a Primavera vem mais cedo?

Alô alô, daqui Polónia. Já sem neve, com algum sol e temperaturas entre os 5º e os 10º. Já sem botas quentes, mas com mocassins ou sapatos de vela. Já sem kispos quentes, mas com agradáveis sobretudos.

Este fim-de-semana fartei-me de andar de carro, sobretudo por estradas secundárias. O balanço do Inverno é muito negativo. Apanhei buracos atrás de buracos, algumas estradas tinham autênticas crateras, foi uma sorte não ter caído em nenhuma. Até um bocado de estrada que tinha sido arranjado no ano passado já está outra vez esburacado. A neve tem destas coisas, sobretudo quando muitas destas estradas foram mal e porcamente construídas pelos comunistas com materiais manhosos. A solução para as arranjar de vez era destruir tudo e construir de raíz uma estrada a sério. Mas isso agora...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A planície dos vendavais

Esta noite a Teresa acordou a chorar, como já há muito tempo não fazia. Fez xixi na fralda a dormir e ficou tão em stress por não ter conseguido fazer na casa-de-banho que começou a gritar, de forma aflitiva: Mamã! Ajuda! Depois de se ter acalmado, descobri que estava com fome, então vim preparar-lhe uma papa. Quando estavávamos as duas na penumbra da sala, a Teresa começou a ouvir o vento na rua. Ontem e hoje tem estado muito vento. Como vi que ela estava a ficar assustada com o barulho, comecei a desdramatizar. A certa altura, ela ia dizendo: O vento tá cansado, quer ir ao óó. Quando cheguei com ela à sala, o céu na rua estava todo azul escuro, mas passado poucos minutos já estava cheio de nuvens. O vento estava mesmo fortíssimo! Agora de manhã continua a fazer um barulhão desgraçado. Este fim-de-semana vai ser porreiro...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Como conservar alimentos frescos durante o Inverno - versão séc. XIX

Contou-me a minha sogra há dias como no passado os polacos conseguiam ter alimentos frescos no Inverno. Se hoje nos supermercados em qualquer época do ano podemos comprar laranjas, laranjas vermelhas, tangerinas, ananazes e outros que tais, nos passado não foi de todo assim.
No campo, as pessoas tinham uma técnica para guardar cenouras, batatas e outros legumes para comerem durante o tempo frio. Faziam uma espécie de arrecadação ao ar livre, coberta por uma camada muito espessa de terra (suficientemente espessa para os animais não chegarem lá, nem a neve queimar os alimentos). De cada vez que precisavam de comer, escavavam nesse monte de terra, tiravam o que necessitavam e voltavam a cobrir. Mesmo assim, a alimentação no Inverno era sempre um pouco deficiente. Para combater doenças várias, surgiram as técnicas de fermentação de couve, que se tornou numa rica fonte de vitamina C para os polacos. Para além disso fermentavam-se também outros alimentos, como o pepino. Estes alimentos ainda hoje fazem parte da dieta de cá. Há pessoas que fazem isto em casa e depois durante o Inverno têm para consumir. Eu, muito sinceramente, não gosto lá muito destes alimentos fermentados, pelo simples motivo de que são todos muito ácidos. A couve, em algumas situações já consigo comer, quando não tem sabor muito forte.
Um alimento que oucupa, ainda hoje, um lugar importante na dieta dos polacos são as batatas. Geralmente comem-se cozidas, apesar de haver ainda outras formas de as cozinhar (como panquecas ou como uma espécie de gnocchi, entre outras). Nós, em nossa casa, raramente comemos batatas, até porque para mim batata cozida é acompanhamento para peixe.

Cepeliny - uma espécie de pierogi, mas com a massa feita à base de batatas cozidas e cruas; recheado com carnes diversas e cozido em água quente.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A religiosidade dos polacos

No que diz respeito à sua religiosidade, a Polónia é um país com aspectos interessantes.

1. Tendo-se convertido ao catolicismo bastante cedo e lutado com garra por ele (pode-se dizer que, graças aos polacos, a Europa não é muçulmana), foi no entanto um país tolerante, que desafiou o Santo Ofício ao receber judeus fugidos de todas as partes da Europa. Isto fez com que a população judia na Polónia fosse, de facto, muito numerosa. Para além disso, na zona oriental da Polónia há também um grande número de pessoas que praticam o cristianismo Ortodoxo, sendo possível encontrar em diversas cidades e vilas templos desta religião (que são lindíssimos). A propósito disto, tenho uma amiga que é de uma cidade nessa zona oriental da Polónia (chamada Podláquia), onde se celebravam tanto os feriados católicos, como os ortodoxos. Certa vez, a falar com o seu futuro marido (que era de outra cidade, mais perto de Varsóvia), percebeu que ele não celebrava as festas ortodoxas e ficou horrorizada. Só depois percebeu que, em geral, na Polónia não se celebram esses feriados, apena nas zonas onde há grande população ortodoxa (precisamente onde ela cresceu).

2. Durante os tempos da Cortina de Ferro, nos países dominados pelo comunismo havia muitas restrições à vida religiosa. Excepcionalmente, a Polónia era o único país onde era permitido ir à Missa e participar em práticas religiosas. Em países como a Checoslováquia isso não era possível e de tal modo quiseram destruir a religião, que hoje em dia mais de 90% dos checos se consideram ateus. O meu primeiro professor de polaco contava que, durante a Guerra Fria, foi uma vez com uns amigos a um dos países comunistas (seria a Hungria?) e no Domingo quiseram ir à Missa. À porta da igreja encontraram soldados que lhes pediram identificação. Ao verem que eram polacos, deixaram-nos entrar. No entanto, não muito longe deles ia um grupo de raparigas jovens que tinha o mesmo plano. À entrada do templo foram barradas e não as deixaram entrar. Para além dos polacos, só deixaram entrar pessoas idosas. Na Polónia não era assim, de todo. O que não significa que não houve perseguições; muitos padres foram assassinados e o Cardeal Wyszynski (Primaz da Polónia) esteve vários anos preso, porque não queria colaborar com o regime*. Ou seja, havia liberdade até certo ponto. Lembro-me aqui de um episódio de uma réplica do ícone da Virgem Negra de Czestochowa que andava a circular por vários locais; uma espécie de peregrinação da imagem. Os comunistas não acharam piada e confiscaram o quadro. As pessoas não gostaram e resolveram continuar a fazer o mesmo, mas com a moldura, que eles tinham deixado para trás.

3. Apesar dos comunistas permitirem o culto religioso, não gostavam da ideia de se construírem igrejas novas. Um exemplo clássico disto é a igreja de Nowa Huta, um bairro operário construído em Cracóvia, no tempo de Karol Wojtyla. Os comunistas fizeram-no um "bairro exemplo" e, como tal, não tinha igreja. As pessoas não acharam piada e resolveram construir a igreja com as suas próprias mãos. Durante meses, à noite, começavam a colocar os fundamentos e de manhã chegavam as milicias e destruíam tudo. Foi um longo jogo de persistência até que os comunistas se renderam ao facto de que ali teria de haver uma igreja. Mas isto não aconteceu apenas em Nowa Huta. Em Ursynów, onde moro, também há histórias destas, sendo a mais impactante a da antiga paróquia do Stas, onde a Teresa foi baptizada. Mas isto hei-de contar noutro post.

4. Como a Polónia foi um país muitas vezes atacado - e até dominado - pela Rússia, ou Prússia, por estes serem países de religiões diferentes e que nem sempre se mostravam tolerantes ao catolicismo, a fé dos polacos foi muito associada ao patriotismo, pois os invasores roubavam-lhes a pátria e a religião. E o que acontece quando as pessoas são atacadas ou perseguidas? A sua fé torna-se mais forte, daí que a Polónia seja conhecida por ser um dos países mais católicos da Europa (apesar da tendência parecer estar a inverter. Agora que não há comunismo, há várias pessoas que professam os seus ideais e, por isso, são anti-igreja).

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* Quanto foi preciso nomear um bispo para Cracóvia, o governo pediu ao Cardeal que lhe entregasse uma lista com os padres que achavam bons para aquele cargo, postos por ordem de importância. Sabendo como o governo agia, o Cardeal resolveu escrever no fim da lista o nome de Karol Wojtyla, sendo que era esse que ele queria para ocupar esse cargo. Os comunistas, achando que o Cardeal não gostava dele, disseram que era aquele que devia ser nomeado bispo. O Cardeal fez cara de poucos amigos, mas fingiu estar a obedecer às ordens. Mais tarde, durante o tempo de episcopado de Karol Wojtyla em Cracóvia, o governo procurou sempre semar a discórdia entre ele e o Cardeal Wyszynski e passar a falsa imagem de que eles se odiavam. O que não era verdade.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A lenda do Pato Dourado

Há muitos, muitos anos, numa cidade chamada Varsóvia, vivia um rapaz, aprendiz de sapateiro, que gostava de se divertir. Certo dia, ouviu alguém falar num grande tesouro que estaria escondido por baixo de um dos palácios de Varsóvia e era guardado por um pato dourado. Quem encontrasse o tesouro, ficaria com ele todo para si. Motivado pela ganância, o rapaz decidiu ir à procura do tal pato dourado. Quando chegou ao palácio, desceu para a cave e começou a procurar o animal. Ao fim de algum tempo, entrou numa sala toda iluminada pelo brilho do ouro que nela se encontrava! Tinha no meio um lago onde estava um pato dourado, com lindíssimas penas. O rapaz aproximou-se e o pato disse-lhe algo extraordinário: todo aquele tesouro seria para si! Antes, porém, deveria passar uma prova. O pato deu-lhe uma bolsa com 100 ducados e disse que, durante um dia, teria de gastar todo aquele dinheiro exclusivamente em coisas para si; não podia partilhar o dinheiro com ninguém. O rapaz partiu todo contente e no dia seguinte de manhã foi às compras. Arranjou roupas boas, comprou um cavalo e foi gastando tudo o que podia. A certa altura já não sabia em que mais haveria de o gastar, pois naquela época esta era uma quantia bastante elevada. Quando o dia já estava a terminar, passou pelo rapaz um velho mendigo. Era um antigo soldado, condecorado pelos seus esforços na guerra, mas que tinha ficado inválido e vivia do que lhe davam. Já não comia há alguns dias e pediu que lhe desse algo para poder matar a fome. Ao ver o seu sofrimento, o rapaz deu-lhe umas moedas. Nesse instante, apareceu junto dele o pato dourado. Por não ter cumprido o acordo e ter dado dinheiro a outra pessoa, o pato retirou-lhe tudo o que tinha comprado com aquele dinheiro e depois desapareceu. O rapaz ficou triste, sem saber o que fazer. Então, o mendigo disse-lhe: "O dinheiro só tem valor pelo esforço que nele investimos; o que recebemos de graça não há-de levar-nos por bom caminho". O rapaz aprendeu que a lógica proposta pelo pato dourado não era a melhor. Depois disto, voltou à sua vida de sapateiro e esforçou-se por ser cada vez melhor. Ao fim de uns tempos, chegou a mestre de sapateiro, conheceu uma linda rapariga, casaram-se e viveram felizes para sempre.

A fonte com a estátua do pato dourado, na rua Tamka, em Varsóvia

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Boa educação

No Domingo, quando estávamos a sair de casa, passou por nós um dos seguranças do condomínio e, como sempre, cumprimentou-nos (e nós a ele, claro está). O mais interessante disto é que o senhor quando se dirigiu a mim tirou o chapéu. São ainda restos da boa educação clássica dos polacos, que é das melhores coisas que eles têm. Se querem falar de cavalheirismo, chamem um polaco! :)

PS - Isto lembra-me sempre uma clássica, uma vez quando estávamos em Lisboa e a Maria teria na altura uns 4 anos. Íamos sair e, como qualquer polaco, o Stas preparou-se para ajudar as mulheres presentes a vestir os casacos. De repente, pegou no sobretudo da Maria e agarrou-o de forma a ela enfiar lá os braços. Ora, a pequenota não percebia nada do que é ele estava para ali a fazer e tirou-lhe o casaco toda zangada, dizendo algo como: "Dá cá o meu casaco!!". Polaco sofre! :D

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A temperatura sobe e desce, sobe e desce

Voltámos às temperaturas negativas, depois de umas semanas com temperaturas acima dos zero. Por mim tudo bem, não fosse a minha sinusite mal curada a voltar a dar sinal... E logo hoje, à entrada do fim-de-semana!... :(

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Dia Internacional de Memória do Holocausto

Hoje comemora-se o aniversário da libertação do campo de Auschwitz. O presidente polaco e alemão lá se encontraram em Auschwitz para uma cerimónia com antigos prisioneiros (fiquei a saber que o presidente da Alemanha se chama Christian Wulff... nem sabia que ele existia...).
Este dia foi proclamado Dia Internacional da Memória do Holocausto pela ONU em 2005, altura em que se reconheceu oficialmente a existência do Holocausto. A propósito disto, gostava de escrever umas breves linhas sobre um polaco notável, chamado Witold Pilecki, membro da resistência polaca durante a guerra.
Quando o mundo, durante a guerra, insistia em fechar os olhos ao que se estava a passar e em negar que houvesse extermínio de pessoas, Pilecki decidiu fazer algo muito arriscado: deixou-se prender para ir para Auschwitz e aí recolheu o máximo de informações para passar à resistência e, por conseguinte, aos aliados.
Pilecki era um militar, que já tinha lutado na guerra contra os russos anos antes. Quando se iniciou a IIª Guerra Mundial, lutou contra os alemães na chamada Campanha de Setembro. Depois disso, veio para Varsóvia e trabalhou com a resistência. Em 1940 teve a ideia de ir para Auschwitz recolher informações sobre o funcionamento do campo e de criar aí um movimento secreto de oposição. Certo dia, quando os alemães apanhavam pessoas na rua para enviar para o campo de concentração (em polaco traduz-se literalmente por "apanhadas", porque as pessoas eram apanhadas na rua assim do meio do nada), ele meteu-se lá no meio e foi também apanhado. Quase 3 dias depois chegou ao campo de concentração.
Durante a sua estadia, organizou o novo movimento de oposição, criando diferentes núcleos (que não sabiam da existência uns dos outros) que se ajudavam mutuamente, fosse a arranjar mais comida, divulgando notícias do exterior (ou passando para fora) ou mesmo animar os espíritos dos outros prisioneiros. Para além disso, Pilecki foi recolhendo informações sobre o genocídio que estava a acontecer dentro de Auschwitz e através de diferentes pessoas foi passando-as para fora (umas para a resistência, outras para os aliados - informações estas que foram ignoradas, pois os aliados continuavam a achar que era tudo um mito).
Por fim, em 1943 Pilecki conseguiu fugir com mais dois prisioneiros. Andou uns tempos escondido e mais tarde voltou às suas actividades, participando na Insurreição de Varsóvia e no exército polaco no estrangeiro, em Itália, lutando com o general Anders.
Com o fim da guerra, regressou à Polónia e começou a recolher informações sobre o que estava a acontecer aos soldados polacos que tinham lutado na resistência, pois os russos andavam a perssegui-los e muitos tinham sido deportados para a Sibéria. O acima mencionado general Anders disse-lhe para fugir da Polónia, mas Pilecki achou que não havia perigo para si. Enganou-se. Em 1947 foi preso pelo UB (a polícia política dos tempos do comunismo) e um ano depois foi condenado por crimes como: atravessar ilegalmente as fronteiras, utilização de documentos ilegais, posse ilegal de armas, ser espião do general Anders (e colaborador do governo polaco no exílio) e tentativa de golpe contra o Ministério da Segurança Nacional. Pilecki acabou por ser assassinado com um tiro na nuca e atirado para uma qualquer vala comum (não há certeza do sítio onde foi enterrado).
Antes de morrer, Pilecki disse à sua mulher que o UB era pior que a SS de Auschwitz. Terá dito algo como: "Auschwitz ao lado disto é uma ninharia".
Nos últimos anos, Pilecki foi postumamente condecorado pelas autoridades polacas com duas ordens oficiais, uma delas a mais importante na Polónia.

 Placa que assinala o local onde Pilecko se deixou apanhar para ir para Auschwitz. Diz o seguinte: Aqui, no dia 19 de Setembro de 1940, foi preso pelos nazis o capitão Witold Pilecki (1901-1948), "Witold", a fim de, como prisioneiro nº. 4859 de Auschwitz, organizar uma conspiração dentro do campo de concentração. Morreu na prisão em Mokotów [Varsóvia] às mãos dos carrascos de Stalin, + 25 de Maio de 1948. Paz à sua alma.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As Salas de Brincadeiras

Um fenómeno que se desenvolveu muito cá nos últimos anos são as salas de brincadeiras. Em Portugal sei que também são populares os locais onde se podem fazer festas de anos. As salas de brincadeira servem para isso, mas essa não é a sua função principal.
Daquilo que já observei, há dois formatos: a sala de brincadeiras assim chamada, onde há escorregas, piscinas com bolas e mil e uma coisas onde as crianças se podem pendurar, saltar e brincar, que adicionalmente pode ter uma zona para os pais com pastelaria; os cafés com zona de brincadeiras, que são primariamente cafés, mas que têm uma área onde as crianças podem estar a brincar sem chatear ninguém (enquanto os pais tomam alguma coisa e aproveitam para ler, conversar ou mesmo trabalhar - hoje em dia em toda a parte já há wi-fi). Para além disto, nas salas de brincadeira cada criança paga pela entrada, enquanto que nos cafés paga-se apenas o que se consome (porque são, de facto, cafés). Estes dois tipos de espaço podem alugar-se para qualquer tipo de evento.
A vantagem das salas de brincadeiras é que, quando está frio e não dá para ir ao parque infantil (que os há aos magotes aqui em Varsóvia), as crianças podem brincar lá à vontade. Para além disso, a maioria delas organiza actividades, como festas temáticas, workshops ou até mesmo aulas de desenvolvimento geral para crianças que ainda não andam na escola/jardim infantil. No Outono comecei a ir com a Teresa a umas aulas destas e estamos a adorar. Estas onde vamos demoram uma hora e no fim temos ainda uma hora grátis para estar lá a brincar. Mas, sobre estas aulas, falarei noutro dia. Posso apenas dizer que, desde que começámos a lá ir, a Teresa tem aprendido muita coisa e sobretudo tem-se desenvolvido muito na questão da língua.




Fotos da "nossa" sala de brincadeiras aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Casas na Polónia

Uma das grandes marcas da passagem do comunismo pela Polónia é a forma de habitação.
É verdade que no tempo do comunismo todas as pessoas tinham direito a ter uma casa e recebiam-na. Porém, como é óbvio, não havia grande opção de escolha: ou se ficava com aquilo que o governo sugeria, ou então azar. E qual era o custo disto? Os comunistas fizeram sobretudo duas coisas. Em primeiro lugar, "pegaram" nas casas que já existiam (imaginem aquelas casas antigas, do início do séc. XX ou até anteriores, grandes) e dividiram-nas em vários apartamentos. Ou seja, uma casa com umas seis assoalhadas, uma cozinha e uma casa de banho era dividida de forma a poderem viver lá várias famílias. Uns ficavam com a cozinha, outros tinham uma cozinha improvisada num quarto normal. Outra opção era ter a casa-de-banho ou a cozinha comum, o que não era nada agradável. Hoje em dia encontramos ainda várias destas casas. Às vezes entramos num prédio qualquer e temos a nítida sensação que ali havia um apartamento grande, que foi todo dividido. Uns amigos nossos, por exemplo, viviam num prédio destes e tinham uma cozinha e casa-de-banho "improvisadas". A casa-de-banho, por exemplo, era uma divisão normal que não tinha sido construída com a intenção de ser casa-de-banho, então no Inverno eles passavam imenso frio ali dentro. As filhas pequenas, por exemplo, tinham de tomar banho na sala (que era a divisão ao lado da casa-de-banho...) para não adoecerem. Graças a Deus eles já não vivem ali, porque as condições eram mesmo degradantes (mesmo estando a casa bem decorada e com um aspecto agradável). Basicamente, para dar casa a toda a gente - e para não haver aquela coisa que os "ricos" tinham casas grandes, para nivelar as classes - assassinaram-se milhares de casas belíssimas, que hoje em dia sinceramente não servem para nada (quem é que quer comprar ou alugar um apartamento daqueles???).
A outra coisa que eles fizeram foi construir blocos de apartamentos. Os edifícios construídos por volta dos anos 50 até nem são muito feios (para mim, para os polacos são horrorosos), mas os construídos depois disso são de fugir. Feios, escuros, com uma quantidade enorme de apartamentos por prédio e a maioria deles, claro está, minúsculos. Obviamente são melhores que os que referi acima, porque estas casas foram construídas de raíz e têm uma certa "lógica arquitectónica".

A consequência de tudo isto é que, mesmo as casas novas que se constróem, têm uma área pequena. O mercado está de tal forma que uma casa com 50m2 pode ser caríssima. O lado menos mau disto é que, como os polacos viveram assim durante tantos anos, para eles não faz grande diferença viver numa casa pequenina. São muitas as famílias em que os pais dormem na sala, para os filhos poderem ter um quarto para si (já nem falando das casas com cozinha aberta para a sala).

Quando começámos à procura de casa cá, à partida não queríamos nem uma casa comunista, nem uma casa minúscula, porque precisávamos de pelo menos um quarto para nós e um para as visitas (que já contávamos ter). Hoje, quando vejo a nossa casa - de que, aliás, gosto muito - noto um certo paradoxo. Para os standards portugueses não é muito grande. No entanto, para os polacos, não está nada mal. Digamos que dos nossos amigos de cá que vivem mesmo em Varsóvia (tirando uns que moram numa zona mais periférica e arrendaram um sótão grande numa moradia) somos os que têm a casa maior. E nem perto de 100m2 temos!!...

Para terminar, algumas imagens dos prédios tipicamente comunistas da Polónia (e dos países do antigo bloco comunista):

Prédio mais antigo do comunismo.

Prédios mais recentes do comunismo.

A forma como estes prédios era construída.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Regresso

Ontem fiquei a saber que há mais gente do que eu pensava a conhecer este blog. Será que com isto me vou incentivar a regressar à escrita na blogosfera? Quem sabe...

Janeiro está quase a chegar ao fim e posso apenas referi algumas coisas:
- Foi o mês de Janeiro mais quente que alguma vez apanhei na Polónia. Houve vários dias com temperaturas iguais às de Lisboa, em que já andávamos com menos roupa em cima. Ironicamente, foram os piores dias do mês, pois na sequência destes ficámos todos constipados (e daquilo que pude observar, não fomos os únicos...). Felizmente já voltaram as temperaturas negativas, ainda que rondem os zero graus, e com estas a neve.


(fotos de hoje)

- A Teresa está cada vez mais bilingue, o que é muito giro. Hoje disse pela primeira vez (e muito bem proncunciada) a palavra "óculos". Desde que aprendeu a falar que dizia sempre a versão polaca, okulary, porque sim. Até nós quando falávamos com ela dizíamos instintivamente "okulaly" (como ela dizia). Hoje disse uma frase em português e à primeira usou "okulary", mas depois percebeu que aquela palavra não ficava me naquele contexto e mudou para "óculos". Depois repetiu a mesma frase com "óculos" para ver que tal soava. Nos últimos tempos tem começado a distinguir mais uma e outra língua e a misturaá-las cada vez menos. Para isto acho que têm ajudado muito as aulas onde temos ido uma vez por semana desde há vários meses. Mas disso falarei noutro post.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Respondendo ao desafio da Margarida

Tenho andado com pouco tempo para bloguices, por isso aproveito o desafio da Margarida para responder pelo menos a duas questões:

1) Criei este blog quando vim viver para a Polónia, de certa forma para pôr a família e os amigos a par do que ia acontecendo por aqui. Entretanto acabei por receber visitas de toda a parte do mundo, achei piada sobretudo a pessoas do Brasil, descendentes de emigrantes polacos.
2) O primeiro post deste blog foi no dia 4 de Janeiro de 2007. Quem diria...

Mudando radicalmente de tema, por aqui finalmente chegou o calor. Tivemos umas trovoadas desgraçadas, em que em poucos minutos caía tanta água como nunca vi. O nosso atalho preferido para fugir ao trânsito, entre Ursynów e Wilanów, está fechado, porque houve desabamento de terras por causa da chuva. O Vístula esteve um espetáculo, com a água muito mais perto das pontes, copas de árvores a saírem de dentro de água e em certos sítios fazia impressão ver a água chegar onde sabíamos que normalmente não chega. Uma pequena praia fluvial a sul de Varsóvia simplesmente desapareceu do mapa. O pior disto tudo é que dizem que se calhar ainda não acabou... Desde que não chova nos próximos dias, sobretudo no fim-de-semana, tudo bem! É que estamos a preparar já a festinha de anos da Teresa e Deus queira que esteja tanto calor como no dia em que ela nasceu. Ah, é verdade, já consegui apanhar o meu primeiro escaldão nos ombros, o que é sinal que este solinho nos tem sabido muuuuuito bem.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Passamos de 8 a 80

Se no Inverno surpreendeu-me o facto do Vístula ter congelado, agora surpreende-me o facto de estar a transbordar das suas margens... Ainda não fui lá perto ver, mas daquilo que vi em fotos e filmes é incrível.

sábado, 17 de abril de 2010

O dia a dia de uma família bilingue

Várias pessoas nos disseram que com a Teresa devíamos ser firmes e eu falar exclusivamente em português e o Staś em polaco. Na prática não conseguimos fazer isso e acabamos por misturar as duas línguas. Há pouco íamos no carro e a Teresa começa a dizer no banco de trás: "Pão, makaron (massa), queijinho, szynka (fiambre)". A mistura de línguas dela é absoluta. A verdade é que já começa a perceber a diferença de certos ambientes. Há dias fomos passear com umas amigas polacas e ela percebeu que ali devia falar polaco e dizia woda em vez de água, etc (quando em casa normalmente prefere dizer aguinha). Quando a Maria esteve cá agora aprendeu a dizer siadaj, que quer dizer senta-te, porque a Teresa diz: senta! Siadaj!
Os nomes dos animais também vai dizendo conforme lhe apetece. Prefere dizer lew a leão, mas prefere macaco a małpa. Leite diz mleko, flores diz em português e sol também. Mas se dissermos estas palavras em polaco, percebe perfeitamente. Há poucos dias apercebi-me que sempre que lhe pergunto se quer alguma coisa e não quer, responde-me em polaco: nie chcę. Esta expressão aprendeu em polaco e é sempre assim que a diz, mesmo quando a pergunta é feita em português.
A nossa forma de a ensinar não é lá muito pedagógica, mas tem a sua piada e mostra-nos como de facto as crianças têm uma capacidade excepcional para aprender línguas.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os polacos estão condenados à tragédia

Fim-de-semana intenso, começando com surpresas de aniversário, passando por exames de polaco e terminando com baptizado de família. Tudo isto com trágicos acontecimentos em background. Como reagir a isto? Não sei. Tenho amigos que choram, por conhecerem famílias que ficaram órfãs, outros que falam em conspirações, outros que foram acender velas junto ao palácio presidencial. É complicado, a Polónia de facto é um país que está condenado às tragédias. Ao menos acabou (por enquanto) as discussões inúteis sobre Katyn, se foi genocídio, se os russos devem pedir desculpa pela enésima vez, etc. Discussões que não acabariam, um tema no qual os políticos gostam de estar sempre a remexer. Agora acabou tudo isso, chega de patetice.
Katyn parece um local assombrado para os polacos. Pela segunda vez a elite polaca terminou os seus dias por ali.

Apenas uma nota sobre os meios de comunicação portugueses. Lamento a sua nabice no que toca a estes acontecimentos. Vi com cada inexactidão nos jornais online portugueses, que nem vou comentar. Felizmente li os polacos e sei como foi tudo na realidade. Os jornalistas portugueses deviam ter vergonha da sua ignorância e deviam estudar um pouco melhor os factos antes de os apresentarem. Digo eu, que sou formada em comunicação social e cada vez mais tenho vergonha da classe jornalística no meu país natal.

terça-feira, 30 de março de 2010

Retratos de Nałęczów

A ida a Lublin aconteceu apenas porque em Dezembro ganhei um fim-de-semana num hotel em Nałęczów. Nałęczów é terra de termas, um local muito conhecido pelos tratamentos que lá se fazem. Os seus ares são considerados muito bons para a saúde já há séculos. No primeiro dia fomos visitar Lublin, que fica a poucos quilómetros de distância, e no segundo dia passeámos por Nałęczów. Não há muito para ver e o pouco que há está aqui. É mais para se estar e relaxar do que propriamente visitar.


Estátua do escritor Bolesław Prus, autor de um livro muito conhecido pelos polacos chamado Lalka. Também ele passou muito tempo nos bons ares de Nałęczów. Na casa da foto de cima há um pequeno museu sobre ele.



Um lago no parque de Nałęczów

Um homem a pescar no meio do lago congelado.



domingo, 28 de março de 2010

Retratos de Lublin

Sem grande tempo para escrever no blog, aproveito para deixar aqui fotos da nossa viagem a Lublin e Nałęczów no mês passado. Para já, são só fotos de Lublin.

Ao longe a vista do castelo de Lublin. Infelizmente não o conseguimos visitar por dentro, porque chegámos tarde demais. Fica para uma próxima visita.

A parte de baixo do passeio real, caminho que vai em direcção ao castelo.

Casas bonitas da parte antiga da cidade. No meio desta praça vêem-se os fundamentos de uma antiga igreja que existia aqui e os russos destruíram no séc. XIX.

Uma casa na parte velha.

Uma das portas da cidade. Diz que o interior desta torre está conservado no museu da cidade. Não o vimos.

Uma rua no centro.

A entrada do antigo cemitério judaico, que data de há vários séculos. Tem um ar velho e abandonado por dentro, não sei se haverá alguém que tome conta dele. Lublin está muito ligada aos judeus, ali existe uma enorme escola rabínica (ou lá como se chama) e há mesmo um percurso turístico ligado aos judeus, que passa por vários locais com eles relacionados.

O portão de entrada do campo de concentração de Majdanek, para onde foram deportados os judeus do gueto de Varsóvia. Nunca estive em nenhum campo de concentração e tenho pouca vontade de estar. Aqui chegámos tarde demais e já não houve tempo de entrar. O simples facto de estar perto desta porta e olhar para ali, ver o arame farpado, etc, já faz muita impressão. Deixa mesmo o coração pequenino.

Mas, para não terminar com uma imagem triste, fica a promessa de em breve colocar aqui fotos de Nałęczów.